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Como o profissional da atenção básica pode atuar frente a um caso de violência?

| 04 abr 2018 | ID: sof-37651
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A vítima de violência deve ter atendimento priorizado, com garantia de privacidade no atendimento e estabelecimento de relação de confiança e respeito(1). Recomenda-se focar no acolhimento com resposta positiva capaz de minorar danos e sofrimentos às pessoas em situação de violência(2). Para isso, é importante ouvir e estar atendo a comunicações verbais e não verbais(1) para, somente depois, realizar preenchimento de fichas e prontuários. O profissional deve desenvolver atitude compreensiva, evitando julgamento e crítica(1). Deve estar atenta aos sinais de alerta de violência (explicação inconsistente de traumatismo ou atraso na busca de atendimento médico, queixas como dor abdominal crônica, cefaleia, fadiga e falta de adesão ao tratamento) e realizar uma abordagem clínica centrado na pessoa(1,2) de forma empática ética e sigilosa.

Por responsabilidade e ética profissional, perguntas para identificação da violência só devem ser adotadas quando e se o profissional tiver ciência de quais condutas adotar nas situações de violência para evitar revitimização, tanto no que concerne ao pronto acolhimento das necessidades de saúde do usuário (a) atendido (a) quanto no conhecimento da articulação intersetorial necessária para a produção do cuidado em saúde em cada caso. É importante que sejam descritos em prontuário os dados completos sobre as circunstâncias da situação de violência, colhidos em entrevista e no exame físico (com registro e classificação de todas as lesões identificadas). O profissional deve estar sensível à dificuldade da pessoa conseguir se expressar verbalmente, o que significa escutar, acolher e observar as expressões da pessoa. Também deve atentar ao tempo particular que a pessoa pode precisar para relatar as vivências de violência e à importância do vínculo para a relação terapêutica, respeitando seu tempo para tomar decisões sobre o itinerário terapêutico e para construir conjuntamente o plano de cuidados, caso queira(3).
Os Agentes comunitários de saúde (ACS) também podem ser importantes aliados na prevenção de violência e promoção da cultura da paz, pois o acompanhamento domiciliar dos casais, famílias ou vizinhos conflituosos pode ser uma importante estratégia de formação de vínculo e redução de dano(2).
Ainda, sugere-se a discussão do caso e o uso de um Projeto Terapêutico Singular (PTS) como instrumentos de intervenção que favoreçam o trabalho em equipes em situação de violência, além do uso do Genograma e o Mapa de Redes(2). O PTS pode ser o instrumento que reunirá informações estratégicas para uma melhor intervenção junto às famílias(2). Os dados da família, recolhidos através dos instrumentos, permitem diálogos interdisciplinares, fundamentais para qualquer intervenção, principalmente para a distribuição do acolhimento e responsabilidade pelo cuidado da família em situação de violência(2). O Genograma constitui numa espécie de “radiografia da história relacional da família”, em termos de vínculo afetivo, através das gerações; e o Mapa de rede uma “radiografia das redes pessoais significativas e rede institucionais” constituídas ou configuradas em torno da família(2).
Ressalta-se, a importância de notificação da violência na Atenção Básica. Essa notificação para vigilância sanitária é compulsória e deve ser feita por meio do preenchimento da ficha disponível no Sistema de Informação de Agravos e Notificação (SINAN)(4).
Os profissionais precisam conhecer a rede intra setorial de seu município para garantir o encaminhamento adequado para outros serviços e unidades das redes: Serviços da Atenção Básica – Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), Ambulatórios Especializados, Policlínicas, Núcleos de Prevenção das Violências e Promoção da Saúde, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Hospitais, Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), Centros de Referência Especializados em de Assistência Social (CREAS), Centro de Referência de Atenção à Saúde da Mulher em Situação de Violência (CRAM), Casa da Mulher Brasileira, entre outros(2).
Pelo fato de a Atenção Básica estar nos territórios, mais próxima do cotidiano das pessoas, tem papel importante na identificação de situações de violência, tanto para conduzir as primeiras abordagens realizadas com as pessoas em situação de violência quanto na promoção do cuidado e do acesso a informações sobre serviços da rede que possam apoiá-las. Neste sentido, a atenção básica, como ordenadora da rede de atenção à saúde, tem muito a oferecer no que diz respeito à prevenção, à promoção à saúde/cultura da paz e a assistência integral de pessoas em situação de violência(2).
Ações de prevenção da violência e promoção da cultura da paz podem ajudar no suporte de pessoas, casais ou famílias em situações de risco, reforçando ambientes favoráveis à paz e estilo de vida saudável em comunidade(1). Também, podem contribuir para que as pessoas compreendam o processo de violência em que vivem, analisar os possíveis caminhos para o enfrentamento e a resolução da situação de violência vivenciada, para então tomar a decisão que lhe seja mais adequada(1,3).

Bibliografia Selecionada

1. Duncan BB. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.
2. Coelho BSE (org.). Atenção a homens e mulheres em situação de violência por parceiros íntimos. Florianópolis : Universidade Federal de Santa Catarina, 2015:298-317. Disponível em: https://unasus-cp.moodle.ufsc.br/enrol/index.php?id=49 [acessado em 10 br. 2017]
3. Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília : Ministério da Saúde, 2016:230p. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/protocolo_saude_mulher.pdf [acessado em 10 br. 2017]
4. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Violência intrafamiliar: orientações para prática em serviço. Brasília : Ministério da Saúde. 8.ed.  2002:p.27. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cd05_19.pdf [acessado em 10 br. 2017]
5. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 1271/2014 e SINAN versão 5.0. Notificação de Violência Interpessoal/ Autoprovocada. 2014. Disponível em: http://u.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/leia-mais-o-ministerio/197-secretaria-svs/15887-notificacao-de-violencia-interpessoal-autoprovocada [acessado em 10 br. 2017]