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O bebê com fissuras labiopalatinas pode ser amamentado?

| 07 mar 2018 | ID: sof-37538
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Sim, o aleitamento materno é essencial para o desenvolvimento estomatognático do bebê com fissura labiopalatina, malformação congênita resultante da falta de fusão dos processos embrionários e na deficiência de união das placas palatinas entre a 4ª e 9ª semana de vida intrauterina.

As fissuras labiopalatinas são, dentre as anomalias craniofaciais, as mais relevantes, destacando-se pelo número de alterações e pela alta complexidade de seus efeitos estéticos e funcionais. A prevalência na população brasileira é de 1 para 673 nascidos vivos(1).
A malformação pode comprometer a alimentação do lactante, tornando-se um desafio para a mãe e seu bebê. O grau de inabilidade de sucção está diretamente relacionado ao tipo de fissura e não há consenso sobre a melhor forma ou método de se alimentar o recém nascido. Os problemas mais comuns são trauma mamilar, ingurgitamento mamário, pouco leite, sucção inadequada por falta de pressão intraoral(2), engolir ar durante as mamadas, alimentação prolongada, regurgitação, perda de peso e consequente comprometimento do crescimento e nutrição do bebê(3).
Apesar da dificuldade de sucção presente nas crianças com fissuras em razão da impossibilidade anatômica de isolar a cavidade oral, da falta de apoio e de estabilização do bico do peito, bem como da posteriorização da língua, o aleitamento materno exclusivo durante os seis primeiros meses de vida deve ser estimulado, principalmente no lado da fissura. Isso corroborará para fortalecer o vínculo materno-infantil, assegurar o crescimento das bases ósseas, uma relação maxilomandibular adequada e o correto desenvolvimento da articulação temporomandibular, além de servir como exercício muscular prévio à queiloplastia, favorecendo a cicatrização da área corrigida cirurgicamente, e auxiliar na prevenção de infecções.
O desconhecimento de profissionais da área de saúde associado ao medo por parte dos pais em razão dos engasgos frequentes durante as mamadas têm levado à falsa concepção que se deve alimentar os bebês com fissuras por meio de conta-gotas, copos e colheres, privando-os dos grandiosos benefícios trazidos pelo aleitamento.
Atualmente, existem protocolos de Centros de Referências no tratamento de fissuras labiopalatinas brasileiros que preconizam a limpeza da área da fissura com cotonetes embebidos em água morna, antes e após as mamadas, bem como a adoção de posição o mais vertical possível dos bebês ou semisentado durante a sucção, para evitar refluxo de leite pelas narinas. Após as mamadas, devem ser colocados no colo para eructar e depois deitados em decúbito dorsal ou de lado. Tais dificuldades na alimentação podem ainda ser minimizadas com a extração manual do leite para amaciar o mamilo e a aréola; a oclusão da fenda com o dedo da mãe durante a mamada; a aplicação de compressas mornas nas mamas para facilitar a saída do leite; e o posicionamento do mamilo em direção ao lado oposto à fenda(4).
No mercado brasileiro de farmácias e supermercados, diversos fabricantes vêm disponibilizando bicos de mamadeiras com válvulas visando à saída de ar durante as mamadas e evitando os engasgos durante o aleitamento, nos casos em que a mãe não conseguir aleitar ao seio.

Atributos da APS
Desta forma, compete aos profissionais da rede básica, desde o pré-natal, reconhecer a malformação e fornecer, do melhor modo possível, orientações sobre o diagnóstico aos pais, bem como o tratamento e serviços disponíveis para atenção de crianças com fissura labiopalatina.
O diagnóstico precoce é importante porque promove o contato da família com especialistas, o que favorecerá o conhecimento de diferentes técnicas de alimentação, evitará o desmame nos casos possíveis e permitirá o planejamento dos cuidados neonatais e terapêutico(4). Os recém-nascidos fissurados necessitam de atendimento em Centros Especializados para reabilitação; entretanto, os atendimentos de puericultura devem ser realizados pela atenção primária, de modo que a Saúde Pública possa ser organizada para atender melhor as crianças com esta anomalia congênita.

Bibliografia Selecionada

1. Gardenal M, Bastos PRHO, Pontes ERJC, Bogo D. Prevalência das fissuras orofaciais diagnosticadas em um serviço de referência em casos residentes no Estado de Mato Grosso do Sul. Arquivos Int. Otorrinolaringol. (Impr.) [Internet]. 2011 June [cited 2018 Mar 07] ; 15( 2 ): 133-141. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1809-48722011000200003&script=sci_abstract&tlng=pt
2. Campillay PL, Delgado SE, Brescovici SM. Avaliação da alimentação em crianças com fissura de lábio e/ou palato atendidas em um hospital de Porto Alegre. Rev CEFAC. 2010; 12(2):257-66. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-18462010000200012
3. Reilly S, Reid J, Skeat J, Cahir P, Mei C, Bunik M; Academy of Breastfeeding Medicine. ABM clinical protocol #18: guidelines for breastfeeding infants with cleft lip, cleft palate, or cleft lip and palate, revised 2013. Breastfeed Med. 2013 Aug;8(4):349-53. doi: 10.1089/bfm.2013.9988. Erratum in: Breastfeed Med. 2013 Dec;8(6):519. PubMed PMID: 23886478; PubMed Central PMCID: PMC3725852. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3725852/
4. Toledo Neto JL, Souza CM, Katakura EALB, Costa TV, Prezotto KH, Freitas TB. Conhecimento de enfermeiros sobre amamentação de recém-nascidos com fissura labiopalatina. Rev Rene. 2015;16(1):21-8. Disponível em: http://www.revenf.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-38522015000100021&lng=es&nrm=iso&tlng=pt