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Quais as principais características da anemia por deficiência de ferro, e quais dados laboratoriais devem ser avaliados para o diagnóstico correto?

| 28 fev 2018 | ID: sof-37368
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A diminuição da taxa de hemoglobina (Hb) no sangue é o que define uma anemia. Na anemia a hemoglobina está menor que 12 g/dl em mulheres e menor que 13 g/dl em homens.
Quando há suspeita de anemia por deficiência de ferro deve-se solicitar, entre outros, a dosagem da ferritina sérica e o hemograma completo.

A História Clínica na anemia causada pela deficiência do ferro (anemia ferropriva ou ferropênica) mostra que a maioria dos pacientes busca o atendimento por sentir fraqueza, intolerância à atividade física, principalmente ao exercício físico, fadiga de grau variado, irritabilidade, cefaleia, mãos e pés frios e muitas vezes perversão alimentar (pica) com ingestão de barro, terra, papel, gelo etc. O exame físico pode revelar palidez, queilite angular (boqueira), principalmente em crianças, glossite e pele seca. Embora grande parte da população com a anemia ferropriva faça parte de um grupo de pessoas com carência nutricional e de baixo nível socioeconômico, ela pode ocorrer também por perda crônica de sangue (hematêmese, melena, menstruação, sangramento hemorroidal, sangramento oculto, perda sanguínea durante o parto e outras) que deve ser investigada(1-3).
Fisiopatologia(1,2):
A falta do ferro é a principal causa etiológica desta anemia. Essa deficiência pode ocorrer pela diminuição da quantidade de ferro absorvido (diminuição da ingestão ou dificuldade na absorção) ou por aumento de perda do ferro, situação comum nos casos de hemorragia crônica, verminose etc. Quaisquer dessas situações leva a um esgotamento das reservas do ferro com consequente diminuição na formação da hemoglobina (Hb).
No organismo o ferro está em três compartimentos ou em três situações interligadas:(2).
1. a “reserva” depende primariamente da quantidade de ferro em estoque. Inicialmente, mesmo com a diminuição da reserva de ferro o quadro de anemia ainda não aparece.
2. o “transporte” é a situação na qual o ferro, está em circulação, transportado pela transferrina.
3. a fase “funcional”, na qual ele participa da síntese da hemoglobina. É a sua falta, nessa fase, que irá provocar o aparecimento da anemia com seus sinais e sintomas.
Laboratório(1-3):
Quando há suspeita de anemia ferropriva deve-se solicitar o hemograma completo com seus índices hematimétricos (Volume Corpuscular Médio –VCM; Hemoglobina Corpuscular Média- HCM e Concentração da Hemoglobina Corpuscular Média – CHCM), além da ferritina sérica. Na dependência de exames específicos pode-se avaliar a deficiência do ferro nas suas diferentes fases.
1. Reserva: quando há diminuição do ferro nesta fase o diagnóstico pode ser feito com a dosagem da Ferritina sérica. Seu valor normal varia de 40 a 200 ng/ml. Há déficit de ferro quando o seu valor está abaixo de 10 a 15ng/ml. Na gestante o valor de referência para deficiência é 20ng/ml.
2. Transporte: embora a taxa da transferrina sérica possa ser diretamente dosada, o principal dado laboratorial desta fase é, porém, uma dosagem indireta da transferrina, a capacidade total de ligação do ferro à transferrina (TIBC). Seu valor normal está situado entre 250 e 450µg/L. Um outro dado laboratorial dessa fase é uma avaliação do índice de saturação da transferrina (ST) (valores entre 30% e 45%) ou a relação do ferro sérico/TIBC. A dosagem do ferro sérico, embora apresente baixa especificidade, também pode ajudar no diagnóstico.
3. Funcional: além das alterações laboratoriais das fases anteriores, há redução da síntese da hemoglobina (Hb). O exame mais importante dessa fase é o hemograma com dosagem da hemoglobina. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que a anemia é leve ou moderada quando a concentração de Hb está entre 7 a 12g/dl e grave quando a Hb for menor que 7g/dl. Esses dados podem ter pequenas variações na dependência da idade, do gênero ou gravidez. No início desta fase, embora já ocorra diminuição da Hb, as hemácias ainda apresentam um volume corpuscular médio (VCM) normal. Com o desenvolver da anemia, ocorrerá a hipocromia, com diminuição da concentração da hemoglobina corpuscular média (CHCM), e microcitose com diminuição do VCM. Se houver piora do quadro, aparecerão as alterações no tamanho (anisocitose) e na forma das células (poiquilocitose)(1-3).
Uma ferritina sérica <15 ng/mL confirma o diagnóstico de deficiência de ferro, independente da concentração de Hb. Uma ferritina sérica<41 ng/mL confirma o diagnóstico de anemia ferropriva em um paciente com baixa concentração de Hb(3).
Tratamento:
Com base na definição de Saúde da OMS, o tratamento da anemia ferropriva deveria começar pela melhora das condições sanitárias e de carência alimentar que, em muitos casos, são os principais fatores que levam ao déficit do ferro. De todo modo, o objetivo do tratamento medicamentoso é o de corrigir a taxa de hemoglobina pela reposição do ferro em circulação e nas suas reservas. Para isso recomenda-se, preferencialmente, o uso oral de sais ferrosos por via oral, que deve ser ingerido, preferencialmente, acompanhado de suco de fruta rica em vitamina C, pois essa vitamina facilita a absorção do ferro.
O Protocolo do Ministério da Saúde(1) dá a seguinte orientação para o tratamento oral:
Fármacos
Uso interno (via oral, VO):
• Sulfato Ferroso 40 mg de ferro elementar por comprimido
• Sulfato Ferroso 25 mg/mL de ferro elementar em solução oral
• Sulfato Ferroso 5 mg/ mL de ferro elementar em xarope
Administração:
As doses terapêuticas usuais dos medicamentos preconizados são:
Sulfato ferroso – tratamento:
• crianças: 3 a 6 mg/kg/dia de ferro elementar, sem ultrapassar 60 mg/dia.
• gestantes: 60 a 200 mg/dia de ferro elementar associadas a 400 mcg/dia de ácido fólico.
• adultos: 120 mg/dia de ferro elementar.
• idosos: 15 mg/dia de ferro elementar.
Tempo de tratamento e Acompanhamento:
O tratamento deverá ser por seis meses, que é o tempo necessário para repor as reservas de ferro do organismo. Os pacientes devem ser acompanhados e avaliados em relação a sintomatologia e com dosagem da Hb a cada oito semanas e da ferritina a cada três meses. Nas gestantes o controle da Hb deve ser feito a cada quatro semanas e o controle da ferritina no final da gestação(1).

Bibliografia Selecionada

1. Brasil. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas. Anemia por deficiência de ferro. Portaria SAS/MS nº 1.247, de 10 de novembro de 2014. Disponível em:
http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2014/dezembro/15/Anemia-por-Defici–ncia-de-Ferro.pdf
2. Grotto HZW. Diagnóstico laboratorial da deficiência de ferro.Rev. Bras. Hematol. Hemoter. 2010;32(Supl.2):22-28. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-84842010000800005&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
3. Schrier SL. Causes and diagnosis of iron deficiency and iron deficiency anemia in adults – UpToDate. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/causes-and-diagnosis-of-iron-deficiency-and-iron-deficiency-anemia-in-adults?search=Causes%20and%20diagnosis%20of%20iron%20deficiency%20and%20iron%20deficiency%20anemia%20in%20adults&source=search_result&selectedTitle=1~150&usage_type=default&display_rank=1