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Qual a abordagem recomendada para homens com queixa de ejaculação precoce?

| 04 abr 2018 | ID: sof-37659
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A abordagem clínica de homens queixando-se de ejaculação precoce (ou rápida) demanda, inicialmente, a contextualização psicossocial e o esclarecimento do sintoma(1). Há opções farmacológicas para se prescrever nessas situações, mas deve haver clareza de que as medicações, de modo isolado, não tratam verdadeiramente o problema, apenas suprimem o sintoma temporariamente, enquanto são utilizadas(2,3,4). O exame complementar fundamental a ser realizado nos homens que sofrem com esse problema é a investigação psíquica, ainda que eles a priori neguem sua ansiedade(5).

O primeiro passo no consultório frente a um paciente que se queixa de ejaculação precoce é justamente compreender o que ele considera como precoce(1). Não raro, aquilo que os homens entendem como orgasmo masculino rápido somente seria veloz se comparado ao imaginário fantasioso, ou a relatos de outros homens, nos quais ocorreria um dilatado tempo para se chegar ao clímax das relações sexuais.
Em um segundo momento, se ficar constatado que realmente a velocidade com a qual o homem libera o ejaculado comprometa significativamente o relacionamento com a(o) parceira(o), há que se oferecer tratamento. Este pode ser embasado pela terapia psicológica, por exemplo, o método psicanalítico(5). Fármacos e medidas comportamentais podem ser medidas paliativas para o sintoma(2,3,4).
A propósito, a ejaculação precoce é exatamente isto, um sintoma, não uma doença física, e, como qualquer outro sintoma, passível de interpretação(5). O profissional de saúde disposto a ajudar os homens com essa queixa deve motivar reflexões sobre os orgasmos precoces, embasado na medicina da pessoa(1), por exemplo:
- Você considera sua ejaculação rápida em comparação a que ou a quem?
- Por que você acha que isso, de ejacular rapidamente, acontece com você?
- Você relaciona esse problema com algum evento em sua vida?
Na literatura médica convencional, há tentativas de se usar números para definir a precocidade da ejaculação. De acordo com uma dessas definições, precoce seria o orgasmo masculino que ocorresse em menos de 2 minutos, contados a partir do início da penetração, ou em menos de 10 incursões do pênis(3). Parece de pouca utilidade esse tipo de definição quando se lida com pessoas apresentando problemas na esfera sexual, haja vista a sexualidade satisfatória ser algo muito particular. Ou seja, aquilo que é prazeroso e normal para certas pessoas, pode ser uma afronta para outras. Alguns coitos considerados rápidos demais por alguns, podem ser satisfatórios para outros. As peculiaridades são incontáveis na seara sexual.
A rapidez do ejaculado, quando implica sofrimento ao homem, costuma ser manifestação da condição psicopatológica conhecida como neurose. Para o neurótico, seus sintomas servem como uma espécie doentia de gozo de não gozar o gozo. Obviamente, há diversos outros tipos de sintomas que permitem caracterizar pessoas neuróticas; a ejaculação precoce, embora possível, não é necessariamente um desses sintomas(5).
A fim de registrar a existência de medidas estritamente sintomáticas para o problema em pauta, os fármacos elencados como primeira escolha para “tratar” a ejaculação precoce são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), sendo a paroxetina mencionada como primeira linha e a sertralina como segunda opção, ambas em doses menores do que o usualmente prescrito para outras indicações dessas drogas(2,4).
Anestésicos tópicos são apresentados como outra possibilidade, no entanto, classificam-se como segunda linha na supressão da ejaculação precoce. Podem provocar efeitos adversos, a saber, eritema da pele e da glande, sensação de queimação, e reações alérgicas, até mesmo na(o) parceira(o)(2).
Uma vez que foram mencionados os ISRS, convém informar que o risco de suicídio parece aumentado e grosseiramente subestimado no tocante ao uso desses antidepressivos. GØtzche(6) alerta para a improbidade científica generalizada que distorceu seriamente a percepção dos benefícios e danos dos ISRS, hoje rotineiramente prescritos.
O referido autor menciona que uma análise desses psicofármacos e medicamentos similares, realizada pela Food and Drug Administration (FDA) em 2006, incluindo 372 ensaios controlados por placebo, envolvendo 100 mil pacientes, descobriu que os ISRS aumentavam o comportamento suicida em indivíduos com idade de até 40 anos, aproximadamente. Desta forma, afirma que os suicídios, a possibilidade de suicídio e a violência associados a tais medicamentos estão sorrateira e intencionalmente omitidos, em decorrência de práticas não éticas e corruptas da indústria de medicamentos, que fatura cifras impressionantes com a venda dos ISRS(6).
Portanto, apesar de não ser proibido prescrever fármacos para indivíduos que se queixam de ejaculação precoce, é fundamental haver ciência sobre as limitações e riscos dessas drogas, especialmente quando se opta pela prescrição de ISRS a adultos jovens. O tratamento da ejaculação precoce idealmente deve ser feito de forma integral, considerando os vários aspectos da pessoa, seu histórico e seu contexto de vida(1). Sendo a integralidade um dos atributos da atenção primária à saúde, deduz-se que esse problema será melhor manejado por profissionais atuantes nesse nível de atenção à saúde e que os objetivos poderão ser mais facilmente atingidos com o trabalho multiprofissional.

Bibliografia Selecionada

1. Stewart M, Brown JB, Weston WW, McWhinney IR, McWilliam CL, Freeman TR. 2a ed. Medicina centrada na pessoa: transformando o método clínico. Porto Alegre: Artmed; 2010.
2. Ferron MM, Lopes Junior A. Problemas da Sexualidade. In: Gusso G, Lopes JMC (organizadores). Tratado de Medicina de Família e Comunidade: Princípios, formação e prática. Porto Alegre: Artmed; 2012:741-746.
3. Núcleo de Telessaúde do Rio Grande do Sul. BVS APS.  O que é ejaculação precoce? Quais são as causas? Qual é o tratamento? Qual a faixa etária é mais atingida? Segunda Opinião Formativa.  ID: sof-5371. 2013. Disponível em: http://aps.bvs.br/aps/o-que-e-ejaculacao-precoce-quais-causas-desta-doenca-qual-o-tratamento-qual-a-faixa-etaria-dos-homens-que-e-mais-atingida/ (acesso em 10 abr 2017).
4. Núcleo de Telessaúde do Rio Grande do Sul. BVS APS. Como deve ser a abordagem e o tratamento da ejaculação precoce na Atenção Primária à Saúde? Segunda Opinião Formativa.ID: sof-5265. 2010. Disponível em: http://aps.bvs.br/aps/como-deve-ser-feita-a-abordagem-e-o-tratamento-da-ejaculacao-precoce-em-ambiente-de-atencao-primaria-a-saude/?post_type=aps&l=pt_BR (acesso em 1o abr 2017).
5. Zimerman DE. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed; 1999.
6. GØtzche PC. Medicamentos mortais e crime organizado: como a indústria farmacêutica corrompeu a assistência médica. Porto Alegre: Bookman; 2014.