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Qual a conduta do cirurgião-dentista da Atenção Básica frente a um caso de Angina de Ludwig?

| 15 set 2015 | ID: sof-21813
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Pacientes com diagnóstico de Angina de Ludwig devem ser encaminhado com urgência pelo Cirurgião-Dentista (CD) clínico geral para tratamento em nível hospitalar1,2,3.

A Angina de Ludwig é uma celulite frequentemente originada de uma infecção odontogênica classicamente localizada no segundo e terceiro molares inferiores, que envolve os espaços submandibular, sublingual e submentoniano1,2,3,4. Descrita em 1836 por Wilhelm Friedrich von Ludwig, atualmente é discutida junto às infecções cervicais profundas, definidas como infecções supurativas que se disseminam e desenvolvem ao longo dos espaços e dos planos fasciais da cabeça e do pescoço4,5.

Antes dosurgimento dos antibióticos, a doença apresentavataxas de mortalidade que ultrapassavam os 54%. Atualmente, devido à evolução dos antibióticos, e à melhoria nos hábitos de higiene bucal, sua incidência é reduzida, embora ainda seja considerado um quadro de alta morbidade e gravidade, principalmente entre pacientes com comprometimento sistêmico3.

 

A sintomatologia típica inclui dor, aumento de volume em região cervical, disfagia, odinofagia, trismo, edema do assoalho bucal, protrusão lingual, febre, linfadenopatia e calafrios1. Sua evolução é rápida, podendo colocar em risco a vida do paciente, seja pela obstrução das vias aéreas, secundária ao edema sublingual e submandibular, ou numa fase mais tardia do processo, em que a disseminação da infecção pode levar à mediastinite, fasceíte necrosante ou sepse2.

Indivíduos mais susceptíveis à Angina de Ludwig são os pacientes com comprometimento sistêmico, decorrente de doenças como AIDS, alcoolismo, glomerulonefrite, desnutrição, diabetes mellitus, uso de anti-inflamatórios hormonais ou imunossupressores, anemia aplástica, entre outras2,3.

O tratamento é em nível hospitalar e concentra–se em torno de quatro atitudes: (1) manutenção das vias aéreas; (2) incisão e drenagem; (3) antibioticoterapia; (4) eliminação do foco infeccioso original1,2,3. A antibioticoterapia endovenosa pode ser a base de Penicilina G, podendo-se associar com Metronidazol1,2,3.

Estudo da prevalência de abcessos cervicais profundos de origem dentária em um hospital português entre 2007-2010 identificou como etiologia dentária mais frequentemente encontrada o abcesso periapicalsem fístula (44,8%), sendo a exodontia o tratamento mais instituído (79%). As doenças sistêmicas mais associadas foram a hipertensão (12,4%) e a diabetes mellitus (10,5%). O tempo de internamento médio foi de 8,95 dias, sendo que 15,2% dos doentes necessitaram de cuidados intensivos4.

No Brasil, estudo do Hospital das Clínicas de São Paulo5 avaliou 57 pacientes internados no período de janeiro de 1999 a janeiro de 2001 com o diagnóstico de infecção dos espaços cervicais profundos. Observou-se uma maior incidência em adultos com idade média de 30,4 anos dentro de uma variância de 2 meses a 65 anos. Houve envolvimento de ambos os sexos com discreto predomínio de homens (56,1%). O foco odontogênico foi o principal responsável pelas infecções (24 casos).

É importante ressaltar a relevância do cuidado integral em saúde, em que o cirurgião dentista da Atenção Básica e a equipe de saúde trabalhem de forma integrada para identificar e encaminhar para o tratamento odontológico pessoas com problemas de saúde bucal, principalmente as que possuem algum tipo de comprometimento sistêmico e/ou imunosupressão. A cárie e a doença periodontal ainda são morbidades muito prevalentes na população, e podem ser facilmente tratadas e prevenidas na atenção básica, evitando a evolução para agravos de maior complexidade, como o caso da Angina de Ludwig.

Bibliografia Selecionada

  1. MARTINS L et al. Angina de Ludwig – considerações sobre conduta e relato de caso. Rev Inst Ciênc Saúde. 2009; 27(4):413-6.
  2. GULINELLI JL et al. Angina de Ludwig. Robrac, 16 (42) 2007.
  3. TAVARES SSS et al. Angina de Ludwig: revisão de literatura e relato de caso. Rev. Cir. Traumatol. Buco-Maxilo-fac. 2009; v.9, n.3, p. 9-14.
  4. ALMEIDA M et al. Abcessos cervicais profundos de origem dentária –revisão de 105 casos. Rev Port Estomatol Med Dent Cir Maxilofac. 2013; 54 (4):197–202.
  5. SENNES LU et al. Infecções dos espaços cervicais: estudo prospectivo de 57 casos. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia. 2002; 68 (3): 388-93.