Como lidar com as demandas vindas das escolas, relacionadas a alunos com possível déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)?

Esta é uma questão muito pertinente e que atualmente está atingindo muitas unidades de saúde. Os profissionais das escolas têm apresentado um despreparo quanto ao assunto Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), e a diferença entre falta de limites e outros problemas psicossociais. Cabe realmente às equipes de saúde da atenção primária à saúde trabalharem tais questões com as escolas e os pais dos alunos.
Além da capacitação dos professores para lidar com estas dificuldades (violência doméstica, transtornos mentais – TDAH-, bulliyng, transtornos psicossociais, etc), pode-se desenvolver rodas de conversa onde eles possam expor suas dificuldades. Estas atividades podem ser desenvolvidas com a comunidade escolar e com os pais, separadamente. Desta forma vocês poderão compreender melhor o que está acontecendo. Trabalhos de terapia comunitária, além da discussão de casos específicos e mais complexos entre a equipe da escola e da unidade de saúde podem ser atividades desenvolvidas, que trarão muitos benefícios a essas crianças “problema”.
É importante salientar que a desatenção, a hiperatividade ou a impulsividade como sintomas isolados podem resultar de muitos problemas na vida de relação das crianças (com os pais e/ou com colegas e amigos), de sistemas educacionais inadequados, ou mesmo estarem associados a outros transtornos comumente encontrados na infância e adolescência. Portanto, para o diagnóstico do TDAH é sempre necessário contextualizar os sintomas na história de vida da criança.
Algumas pistas que indicam a presença do transtorno são:
a) duração dos sintomas de desatenção e/ou de hiperatividade/impulsividade. Normalmente, as crianças com TDAH apresentam uma história de vida desde a idade pré-escolar com a presença de sintomas, ou, pelo menos, um período de vários meses de sintomatologia intensa. A presença de sintomas de desatenção e/ou de hiperatividade/impulsividade por curtos períodos (dois a três meses) que se iniciam claramente após um desencadeante psicossocial (por exemplo, separação dos pais) deve alertar o clínico para a possibilidade de que a desatenção, a hiperatividade ou a impulsividade sejam mais sintomas do que parte de um quadro de TDAH;
b) frequência e intensidade dos sintomas. As pesquisas têm demonstrado que sintomas de desatenção, de hiperatividade ou de impulsividade acontecem mesmo em crianças normais, uma vez ou outra ou até mesmo frequentemente em intensidade menor. Portanto, para o diagnóstico de TDAH, é fundamental que pelo menos seis dos sintomas de desatenção e/ou seis dos sintomas de hiperatividade/impulsividade descritos acima estejam presentes frequentemente (cada um dos sintomas) na vida da criança;
c) persistência dos sintomas em vários locais e ao longo do tempo. Os sintomas de desatenção e/ ou hiperatividade/impulsividade precisam ocorrer em vários ambientes da vida da criança (por exemplo, escola e casa) e manterem-se constantes ao longo do período avaliado. Sintomas que ocorrem apenas em casa ou somente na escola devem alertar o clínico para a possibilidade de que a desatenção, a hiperatividade ou a impulsividade possam ser apenas sintomas de uma situação familiar caótica ou de um sistema de ensino inadequado. Da mesma forma, flutuações de sintomatologia com períodos assintomáticos não são características do TDAH;
d) prejuízo clinicamente significativo na vida da criança. Sintomas de hiperatividade ou de impulsividade sem prejuízo na vida da criança podem traduzir muito mais estilos de funcionamento ou de temperamento do que um transtorno psiquiátrico; e) entendimento do significado do sintoma.
Para o diagnóstico de TDAH, é necessário uma avaliação cuidadosa de cada sintoma e não somente a listagem de sintomas. Por exemplo, uma criança pode ter dificuldade de seguir instruções por um comportamento de oposição e desafio aos pais e professores, caracterizando muito mais um sintoma de transtorno opositor desafiante do que de TDAH. É fundamental verificar se a criança não segue as instruções por não conseguir manter a atenção durante a explicação das mesmas. Em outras palavras, é necessário verificar se o sintoma supostamente presente correlaciona-se com o constructo básico do transtorno, ou seja, déficit de atenção e/ou dificuldade de controle inibitório.
Por meio do artigo percebe-se que ainda há pouco conhecimento sobre TDAH, sendo necessário que todos os envolvidos neste processo (professores, equipe pedagógica, alunos e pais) tenham conhecimento sobre TDAH, pois um dos maiores problemas está no fato de que ainda há pouco conhecimento no âmbito escolar e entre os pais, havendo ainda, rotulação dos alunos que são acusados injustamente de mal-educados, preguiçosos, desastrados, desequilibrados, justamente porque não foi diagnosticado e tratado a tempo. No âmbito escolar os materiais utilizados devem ser são organizados contendo explicações claras e objetivas, e o tempo de durabilidade previsto para a realização das atividades devem ser quantificados de forma diferente das exigências d sala comum. O ambiente em sala de aula para o aluno com TDAH necessita ser projetado com algumas considerações a fim e permitir um retorno favorável para o aprendizado dessas crianças, podendo conter cartazes explicativos com normas de funcionamento estimulando os lembretes necessários para os alunos desatentos.
Pode-se constatar que o professor desempenha um papel fundamental no diagnóstico do TDAH, devendo o mesmo ser orientado para distinguir um aluno sem limites de um que apresenta o problema, visto que este distúrbio só fica evidente no período escolar, quando é preciso aumentar o nível de concentração para aprender.
Considera-se que o professor juntamente com toda a equipe da escola, e não somente a equipe de saúde, necessitam desenvolver um trabalho de mediadores, sendo fundamental o processo de observação do rendimento e avaliação dos alunos com TDAH, uma vez que por meio desse processo estarão conhecendo a situação de aprendizagem bem como conhecerão as necessidades específicas dos seus alunos, buscando no coletivo o desenvolvimento pleno dos alunos, fazendo sempre que necessário as adaptações curriculares, trabalhando com um modelo de ensino a partir do diferencial cognitivo e sócio-afetivo de cada um.
O acompanhamento (longitudinalidade) é muito importante para que essas crianças “problemas” recebam o atendimento adequado e que o suporte para os pais e professores destas seja dado de forma correta, ajudando-as no desenvolvimento escolar e na vida interpessoal. Sugiro também leitura do Caderno de Atenção Básica nº 33: http://189.28.128.100/dab/docs/publicacoes/cadernos_ab/caderno_33.pdf

Informações complementares Estratégias de ação pedagógica: O sucesso na sala de aula exige uma série de estratégias, onde a maioria das crianças com TDAH pode permanecer na classe normal, com pequenos arranjos na arrumação da sala, utilização de um auxiliar e/ou programas especiais a serem utilizados fora da sala de aula. Os professores devem conhecer técnicas e estratégias que auxiliem os alunos com TDHA a terem melhor desempenho, sendo que em alguns casos é preciso ensinar ao aluno técnicas específicas para minimizar as suas dificuldades. Quando os alunos com TDAH se dedicam a fazer algo estimulante ou do seu interesse, conseguem permanecer mais tranquilas. Isto ocorre porque os centros de prazer no cérebro são ativados e conseguem dar um “reforço” no centro da atenção que é ligado a ele, passando a funcionar em níveis normais. Uma das propostas de tratamento são as seções terapêuticas, sendo elaborada com envolvimento de profissionais e familiares, além disso professores e equipe pedagógica necessitam ser orientados no acompanhamento dos procedimentos necessários a serem empreendidos no dia-a-dia, em busca de melhorias no processo de ensino e aprendizagem. Partel (2009) cita dicas para mudança de comportamento:
  • Evitar a utilização de reforços negativos, para que os mesmos não sejam aumentados.
  • Utilizar mais reforços de extinção – um comportamento “”sem IBOPE”" provavelmente sairá do ar.
  • Sempre utilizar reforços positivos, pois se a qualquer comportamento adequado (mesmo que para pais e professores não passe de mera obrigação), houver recompensa e/ou reconhecimento, esse tipo de comportamento tende a aumentar cada vez mais.
  • Quando se pretende modificar um comportamento indesejável, deve-se decidir por qual o comportamento positivo quer substituí-lo, para depois ir punindo o comportamento oposicional indesejável, com punições brandas, como por exemplo a perda de privilégios, mantendo a relação de uma punição para três ou mais situações de elogio e recompensa. A tendência é a extinção natural das punições.
  • Não se deve perder a perspectiva dos objetivos, evitando a irritabilidade, a impaciência, a confusão e atitudes enfurecidas frente ao aluno com TDAH.
  • É necessário manter o ritmo, respirando fundo e lembrando que o adulto é o educador.
  • Deve-se ter muita sabedoria e paciência para equilibrar amor com regras e limites claros na educação.
  • Objetiva-se a preparação da criança e/ou adolescente para viver em sociedade, para que se integre, com boa auto-estima, sabendo respeitar limites (seus e dos outros).
  • Olhar de fora da cena, como se fosse um estranho imparcial, racional, sem qualquer envolvimento emocional.
  • Deve-se enfocar o comportamento negativo, deficiente e destrutivo que necessita ser mudado, lembrando sempre que o aluno tem uma incapacidade, uma dificuldade, e não falta de caráter: ele não consegue controlar o que fala ou faz e com certeza tem qualidades e potenciais a serem valorizados.
  • É MUITO MAIS DIFÍCIL DECEPCIONAR ALGUÉM QUE CONFIA EM NÓS.
Além disso, a sala de aula por atender alunos com TDAH necessita ser organizada e estruturada, utilizando material didático adequado à habilidade da criança, havendo avaliação frequente e imediata, estabelecendo regras claras, planejamento previsível e carteiras separadas, deve-se utilizar os prêmios como meio estimulador ao aluno, sendo os mesmos coerentes e frequentes, fazendo parte do trabalho com a turma. Em alguns momentos as interrupções e pequenos incidentes devem ser ignorados, pois têm menores consequências. Deve-se sim trabalhar estratégias cognitivas que facilitam a auto-correção, assim como melhoram o comportamento nas tarefas, devem ser ensinadas. As atividades devem ser variadas, mas buscando sempre ser interessantes para os alunos, e ainda as expectativas do professor devem ser adequadas ao nível de habilidade da criança e deve-se estar preparado para mudanças. Os professores devem ter conhecimento do conflito incompetência x desobediência, e aprender a discriminar entre os dois tipos de problema. É preciso desenvolver um repertório de intervenções para poder atuar eficientemente no ambiente da sala de aula de uma criança com TDAH. Santos (2009) traz sugestões para Intervenções do Professor para ajudar a criança com TDAH a se ajustar melhor à sala de aula:
  • Deve-se proporcionar uma boa estrutura, organização e constância (exemplo: sempre a mesma arrumação das cadeiras ou carteiras, programas diários, regras claramente definidas).
  • Colocar a criança perto de colegas que não o provoquem, perto da mesa do professor, na parte de fora do grupo.
  • Encorajar freqüentemente, elogiar e ser afetuoso, para que os alunos não desanimem facilmente.
  • Procurar dar responsabilidades que possam cumprir fazendo com que se sintam necessárias e valorizadas.
  • Iniciar sempre com tarefas simples e gradualmente mudar para mais complexas.
  • Proporcionar um ambiente acolhedor, demonstrando calor e contato físico de madeira equilibrada e, se possível, fazer os colegas também terem a mesma atitude.
  • Proporcionar trabalho de aprendizagem em grupos pequenos e favorecer oportunidades sociais.
  • Trabalhar em grupos pequenos, buscando atingir melhores resultados acadêmicos, comportamentais e sociais.
  • Manter comunicação com os pais, pois geralmente, eles sabem o que funciona melhor para o seu filho.
  • Proporcionar mudança do ritmo ou o tipo de tarefa com frequência para eliminar a necessidade de ficar enfrentando a inabilidade de sustentar a atenção, e isso vai ajudar a auto-percepção.
  • Dar oportunidades para movimentos monitorados, como uma ida à secretaria, levantar para apontar o lápis, levar um bilhete para o professor, regar as plantas ou dar de comer ao mascote da classe.
  • Reconhecer as deficiências e inabilidades decorrentes do TDAH, fazendo adaptações necessárias. (Exemplo: se a atenção é muito curta, não deve esperar concentração em uma única tarefa)
  • Dar recompensa pelo esforço, persistência e o comportamento bem sucedido ou bem planejado.
  • Trabalhar com exercícios de consciência e treinamento dos hábitos sociais da comunidade.
  • Avaliação continua sobre o impacto do comportamento da criança sobre ela mesma e sobre os outros ajuda bastante.
  • Proporcionar contato aluno/ professor, permitindo um “controle” extra sobre o aluno na execução da tarefa, possibilitando oportunidades de reforço positivo e incentivo para um comportamento mais adequado.
  • Colocar limites claros e objetivos; tendo uma atitude disciplinar equilibrada e proporcionar avaliação frequente, com sugestões concretas e que ajudem a desenvolver um comportamento adequado.
  • Fornecer instruções claras, simples e dadas uma de cada vez, com um mínimo de distrações.
  • Não segregar o aluno que talvez precise de um canto isolado com biombo para diminuir o apelo das distrações.
  • Fazer do canto um lugar de recompensa para atividades bem feitas em vez de um lugar de castigo.
  • Desenvolver um repertório de atividades físicas para a turma toda, como exercícios de alongamento ou isométricos.
  • Proporcionar intervalos previsíveis sem trabalho que o aluno pode ganhar como recompensa por esforço feito, aumentando o tempo da atenção concentrada e o controle da impulsividade através de um processo gradual de treinamento.
  • Perceber se há isolamento nas atividades recreativas barulhentas, pode indicar dificuldades de coordenação ou auditivas que exigem uma intervenção adicional.
  • Preparar com antecedência para as novas situações, pois tem sensibilidade em relação às suas deficiências e facilmente se assusta ou se desencoraja.
  • Trabalhar com métodos variados (som, visão, tato), entretanto, novas experiências envolvem muitas sensações (sons múltiplos, movimentos, emoções ou cores), e provavelmente irá precisar de tempo extra para completar a tarefa.
  • Reconhecer que os alunos com TDAH necessitam de aulas diversificadas, modificando o programa para que o aluno senta conforto.
  • Ter comunicação constante com o psicólogo ou orientador da escola, ele é a melhor ligação entre a escola, os pais e o médico.
  • Também é necessário que o professor realize pesquisas sobre TDAH, com o intuito de melhorar a aprendizagem dos alunos que apresentam esse déficit, traçando estratégias para que os mesmos não e sintam entediados e não atrapalhem o andamento das aulas, o professor poderá:
  • Substituir as aulas monótonas aulas mais estimulantes que venham prender a atenção do aluno.
  • Utilizar recursos variados que não são habituais na sala de aula (informática, experiências, construção de maquetes, atividades desafiadoras de criar, construir e explorar.
  • • Procurar trazer os alunos para perto do quadro, podendo acompanhar melhor o processo educativo, se está conseguindo acompanhar o ritmo, ou se é necessário desacelerar um pouco.
  • Fazer um roteiro das atividades do dia, para que o aluno perceba as regras pré-definidas e que todos devem cumpri-las.
  • As tarefas devem ser curtas, para que ele consiga concluir a tarefa e não pare pela metade, o que é muito comum.
  • Não utilizar cores muito fortes na sala e na farda como amarelo e vermelho, cores fortes tendem a deixar os alunos mais agitados, excitados e menos atentos. Procure colocar tons mais neutros e suaves.
  • Possibilitar a saída do aluno algumas vezes da sala para levar bilhetes, pegar giz em outra sala, ir ao banheiro, assim estará evitando que ele fuja da sala por conta própria.
  • Elogiar o bom comportamento e as produções, ajudando a elevar sua auto-estima.
  • Utilizar uma agenda de comunicação entre pais e escola, evitando que as conversas se dêem apenas em reuniões.
  • Aproveitar as aulas de educação física como auxílio na aprendizagem dos alunos que parecem ter energia triplicada (ginástica ajuda a liberar a energia que parece ser inesgotável, melhora a concentração com exercícios específicos, estimula hormônios e neurônios, a distinguir direita de esquerda já que possuem problemas de lateralidade que prejudicam muito sua aprendizagem).