Como o Agente Comunitário da Saúde pode identificar sinais de depressão pós-parto?

Nenhum estágio da vida da família é tão cheio de ambivalências quanto o da chegada de um novo filho. Os novos pais estão envolvidos em um processo de adaptação que resulta na organização de suas vidas e de suas relações entre eles e com os membros da família de origem. O período pós-parto é um momento em que a identidade da mulher pode ser desafiada e a sua autoconfiança ameaçada.
À medida que ela começa a articular a filosofia de ser mãe, a nova mãe começa a testar a si mesma contras as expectativas da sociedade sobre ela enquanto mãe, além das suas próprias expectativas.
É comum a ocorrência de certo grau de depressão poucos dias após o parto. Isso reflete uma fase transitória de adaptação a uma situação nova, na qual se destacam como elementos importantes os desconfortos do puerpério imediato, a fadiga, a ansiedade relativa aos cuidados e responsabilidades com o recém-nascido e as mudanças físicas. Em geral, esse estado é de curta duração, não persistindo por mais de 10 dias.
Quando se torna mais prolongado ou com sinais de agravamento, pode se tratar de um caso de depressão pós-parto.
Os primeiros sintomas de depressão pós-parto são insônia, perda da autoestima, irritabilidade e tristeza. Sintomas mais graves incluem inapetência, comportamento obsessivo (pensamentos repetidos incontrolados) e pânico (crises de mal-estar, com ansiedade e medo).
Existe uma escala que avalia inicialmente a possibilidade de uma puérpera estar com depressão pós-parto. Ela foi desenvolvida em outro idioma, mas foi traduzida para o português e estudada no Brasil e é validada para rastreamento de depressão pós-parto. Deve ser lida e preenchida pela própria mãe, ou pelo profissional de saúde quando ela não sabe ler.

Modelo de escala: Você teve há pouco tempo um bebê e nós gostaríamos de saber como você está se sentindo. Por favor, marque a resposta que mais se aproxima do que você tem sentido NOS ÚLTIMOS SETE DIAS, não apenas como você está se sentindo hoje.
Aqui está um exemplo já preenchido: Eu tenho me sentido feliz: Sim, todo o tempo. Sim, na maior parte do tempo. Não, nem sempre.} Não, em nenhum momento. Esta resposta quer dizer: “Eu me senti feliz na maior parte do tempo” na última semana. Por favor, assinale as questões seguintes do mesmo modo.
Nos últimos sete dias

  1. Eu tenho sido capaz de rir e achar graça das coisas? Como eu sempre fiz. Não tanto quanto antes. Sem dúvida menos que antes. De jeito nenhum.
  2. Eu sinto prazer quando penso no que está por acontecer em meu dia-a-dia? Como sempre senti. Talvez menos do que antes. Com certeza menos. De jeito nenhum.
  3. Eu tenho me culpado sem necessidade quando as coisas saem erradas? Sim, na maioria das vezes. Sim, algumas vezes. Não muitas vezes. Não, nenhuma vez.
  4.  Eu tenho me sentido ansiosa ou preocupada sem uma boa razão? Não, de maneira alguma. Pouquíssimas vezes. Sim, alguma s vezes. Sim, muitas vezes.
  5. Eu tenho me sentido assustada ou em pânico sem um bom motivo. Sim, muitas vezes. Sim, algumas vezes. Não muitas vezes. Não, nenhuma vez.
  6. Eu tenho me sentido esmagada pelas tarefas e acontecimentos do meu dia-a-dia? Sim. Na maioria das vezes eu não consigo lidar bem com eles. Sim. Algumas vezes não consigo lidar bem como antes. Não. Na maioria das vezes consigo lidar bem com eles. Não. Eu consigo lidar com eles tão bem quanto antes.
  7. Eu tenho me sentido tão infeliz que tenho tido dificuldade de dormir? Sim, na maioria das vezes. Sim, algumas vezes. Não muitas vezes. Não, nenhuma vez.
  8. Eu tenho me sentido triste ou arrasada? Sim, na maioria das vezes. Sim, muitas vezes. Não muitas vezes. Não, de jeito nenhum. 9. Eu tenho me sentido tão infeliz que tenho chorado? Sim, quase todo o tempo. Sim, muitas vezes. De vez em quando.Não, nenhuma vez. 10. A ideia de fazer mal a mim mesma passou por minha cabeça? Sim, muitas vezes, ultimamente. Algumas vezes nos últimos dias. Pouquíssimas vezes, ultimamente Nenhuma vez.

Cada resposta recebe uma pontuação de 0 a 3, conforme a gravidade do sintoma. É importante ressaltar que as perguntas 3, 5, 6, 7, 8, 9 e 10 estão na ordem inversa (do mais grave=3 ao menos grave=0). Um escore acima de 11 levanta fortemente a suspeita de depressão pós-parto, que deve ser confirmada por avaliação médica.

SOF Relacionadas:
  1. Como identificar quem está com depressão e o começo dela?
  2. Como identificar sinais e sintomas de depressão durante a visita do Agente Comunitário de Saúde?
  3. Como o Agente Comunitário de Saúde pode auxiliar no reconhecimento de sinais e sintomas de usuários com depressão para um diagnóstico precoce?
  4. Quais os sintomas de depressão e como trabalhar com pessoas deprimidas?
  5. Quais são os sinais e sintomas de transtornos de humor (ansiedade e depressão) que podem ser usados em uma estratégia de rastreamento populacional?
  6. Como o Agente Comunitário da Saúde pode identificar sinais de depressão pós-parto?
  7. Quais orientações os agentes de saúde podem prestar para pacientes com depressão e familiares?

Bibliografia Selecionada

  1. Santos MFS, Martins FC, Pasquali L. Escala de auto-avaliação de depressão pós-parto: estudo no Brasil. Rev Psiquiatr Clin. 1999;26(2):90-5 Disponível em: http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol26/n2/artigo(90).htm Acesso em: 17 mai 2010.
  2. Midmer D, Watson W, Wetzel W, Wilson L. Ajuste Pós-Parto.
  3. Watson WJ, Stewart D. Postpartum adjustment: Helping families survive the first year. Patient Care Canada. 2005;16