Como realizar atividades de educação nutricional com pessoas portadoras de deficiência visual?

Quando a visão, um dos aspectos sensoriais, não se faz presente, a exploração dos demais sentidos deve ser destacada na tentativa de concretizar um processo de construção do conhecimento nutricional. A questão da ampliação dos demais sentidos pode ser o grande objetivo a nortear os trabalhos desenvolvidos, também contribuindo para superar os obstáculos relacionados à própria deficiência visual de que são portadores os usuários atendidos, como a capacidade de seleção dos alimentos no momento de aquisição e preparo1.
Nesse sentido, os temas a serem trabalhados, no processo de educação nutricional, são similares àqueles que poderiam ser discutidos com a população em geral, atentando-se para a adaptação das metodologias utilizadas segundo as condições dessa população. Por exemplo, ao discutir a necessidade de reduzir o consumo de sódio na alimentação, poderiam ser realizadas oficinas de temperos naturais utilizando-se do tato, do olfato e do paladar no sentido de fomentar seu uso culinário e, consequentemente, a redução da adição de sal, (por exemplo, através da degustação de preparações ou alimentos).

Em um trabalho desenvolvido em conjunto entre a Universidade Federal de Santa Catarina e a Associação Catarinense para Integração dos Cegos1, os sentidos da audição, tato, olfato e paladar foram explorados através de metodologias ativas. Dentre as ações realizadas, destacaram-se a “dinâmica das frutas” incentivando o reconhecimento de diferentes tipos de frutas e o resgate da cultura alimentar, “aula de ioga”, “pintura de painéis com tinta guache”, “massagem corporal”, “contato com a natureza” e, “baile dos sucos”, atividade de fechamento das ações do grupo realizada anualmente. Já na experiência desenvolvida pela Universidade Federal de Juiz de Fora junto à Associação dos Cegos de Juiz de Fora2, foram organizados quatro encontros. No primeiro deles, foram introduzidos os conceitos sobre alimentação adequada e saudável, bem como foram abordados de forma interativa os Dez Passos para uma Alimentação Saudável e coletadas dúvidas para serem trabalhadas posteriormente. No segundo encontro, foram apresentados os conceitos da pirâmide alimentar, explicando sua divisão, os grupos de alimentos e as porções diárias recomendadas. Nesse momento, os participantes puderam sentir a pirâmide adaptada e materiais em braile, além de, através do tato e do olfato, distinguir alimentos de cada um dos grupos trabalhados. No terceiro encontro, foram discutidas as medidas caseiras, utilizando-se copos, pratos e talheres de diferentes tamanhos. Além disso, também foi debatido o consumo abusivo de alimentos processados e ultra processados e suas implicações para a saúde, bem como as consequências do consumo excessivo de sal, gordura e açúcar. Para finalizar essa atividade, os participantes puderam sentir o teor de sal e açúcar em alimentos industrializados por meio de “saquinhos” que continham as quantidades existentes desses ingredientes em diferentes alimentos e experimentaram suco industrializado e natural para buscar identificar suas diferenças através do paladar e do olfato. No último encontro, foram esclarecidas dúvidas e abordado o tema das sobremesas saudáveis, solicitado pelos participantes. Para finalizar, foi realizada uma degustação de salada de frutas. Ressalta-se, por fim, que possivelmente em nenhuma outra forma de educação os recursos didáticos assumam tanta importância como na educação de pessoas com deficiência visual3. Portanto, as metodologias e os materiais selecionados devem ser criteriosamente escolhidos e, sempre que possível, sua apresentação ser acompanhada de explicações verbais objetivas3. Além disso, podem ser pensadas em outras estratégias que facilitem o acesso desses usuários às informações, por exemplo, através de articulações intersetoriais que possibilitem a produção de materiais referentes à saúde em braile. Essas e outras estratégias são importantes para promover a inclusão das pessoas com deficiência no SUS, buscando-se a universalização do acesso à saúde e a integralidade da atenção a esses indivíduos.