Como realizar o acolhimento e classificação de risco para o tratamento odontológico de urgência na atenção primária à saúde?

Os profissionais das equipes de saúde bucal (eSB) devem conversar com outros profissionais da unidade da Atenção Primária à Saúde (APS) para que os usuários de demanda espontânea e de urgência sejam avaliados de acordo com gravidade caso-a-caso, como por exemplo, dor dentária espontânea, fratura dento-alveolar, sangramento espontâneo, presença de abscessos e o que mais a eSB julgar como atendimento prioritário. É primordial a articulação entre as equipes de saúde bucal e de atenção primária para ações de acolhimento e classificação de risco, tanto na entrada por busca ativa pelos agentes comunitários de saúde ou outros, como pelos profissionais da saúde, que orientam os usuários a procurarem as unidades da APS para atendimento odontológico. Os profissionais da saúde devem estar atentos aos tipos de urgências odontológicas, pois elas podem apresentar potencial de agravamento para situação de emergência e/ou quadro que leva à limitação das atividades habituais do indivíduo(1).

O quadro abaixo sugere um protocolo de urgência/emergência em saúde bucal, baseado no protocolo de Manchester, como método de priorização para o atendimento(2):

Quadro 1: Urgência/Emergência em Saúde Bucal: Manchester Adaptado para Saúde Bucal

Fonte: Diretrizes da Política Estadual de Saúde Bucal/SES-SP(2).

Após a priorização dos pacientes em situação de urgência, a conduta profissional deve ser no sentido da melhor resolutividade possível para evitar retornos e novas intervenções sob o mesmo CID (código internacional de doenças). Em alguns casos como as exodontias, pressupõe interação medicamentosa prévia, portanto indica-se retornar como urgência no mesmo local onde foi medicado em prazo recomendado pelo profissional. Para pulpite e abcesso, além da interação medicamentosa sistêmica, orienta-se a realização de procedimentos locais(2,3).

Após serem realizados os procedimentos de urgências, os usuários deverão ser encaminhados para o tratamento recomendado que poderá ser na própria unidade de saúde da APS, nos Centros de Especialidades Odontológicas (CEO’s) ou policlínicas. No caso das emergências em saúde bucal, estas devem ser tratadas junto à rede de urgência e emergência(1,3).

Os tipos de urgências odontológicas com resolutividade na APS são variados e podem ser: dor aguda decorrente de pulpite, dor orofacial, ajustes de próteses que estão causando lesão ou desconforto na cavidade oral, pericoronarite, alveolite, gengivite ulcerativa necrosante, pulpite ulcerativa necrosante, remoção de sutura, abcesso dental ou periodontal, trauma dental, cimentação de próteses, biópsia e ações de apoio a diagnóstico de câncer de boca, cárie extensa e mucosite. Estas podem ter resolutividade em Unidades de Saúde da Família, Unidade Básica de Saúde, entre outros estabelecimentos da Atenção Primária e em Unidade de Pronto Atendimento(1). As condições como sangramentos não controlados; celulite ou infecções bacterianas difusas, com aumento de volume (edema) de localização intraoral ou extraoral, e potencial risco de comprometimento da via aérea dos pacientes; traumatismo envolvendo os ossos da face, com potencial comprometimento da via aérea do paciente; risco à vida e/ ou condição que exija curto tempo-resposta à condição apresentada são consideradas emergência  e devem ser tratadas em hospitais e locais de pronto atendimento(1). A organização do pronto atendimento deverá levar em conta a realidade local, a avaliação da situação de risco à saúde bucal na consulta de urgência e o retorno do usuário ao serviço para a continuidade do tratamento(4). Triagem ou classificação de risco é uma ferramenta de manejo clínico de risco empregada nos serviços de urgência por todo o mundo, para efetuar a construção dos fluxos de pacientes quando a necessidade clínica excede a oferta. A classificação de risco organiza a fila de espera, propõe outra ordem de atendimento, que não a ordem de chegada, e tem outros objetivos importantes tais como(4,5): a) Garantir o atendimento imediato do usuário com grau de risco elevado, assim como orientar a seus familiares, sobre o tempo provável de espera; b) Promover o trabalho em equipe por meio da avaliação contínua do processo; c) Dar melhores condições de trabalho para os profissionais pela discussão da ambiência e implantação do cuidado horizontalizado; d) Aumentar a satisfação dos usuários; e) Possibilitar e instigar a pactuação e a construção de redes internas e externas de atendimento. Entre os desafios e necessidades da atenção às urgências, destacam-se a estratificação de riscos (produzindo equidade), a garantia de acesso aos serviços de acordo com a situação, bem como a integração entre unidades assistenciais de diferentes perfis, como as unidades de Saúde da Família, as unidades de pronto-atendimento (UPA), o serviço de atendimento móvel de urgência  SAMU e os hospitais de emergência e trauma(5,6).