Como tratar a depressão pós-parto?

O tratamento da depressão pós-parto é geralmente estabelecido conforme a gravidade do quadro depressivo apresentado. Esse tratamento é baseado nos mesmos princípios que norteiam a terapêutica da depressão não relacionada com o pós-parto. Assim, pode ser utilizada psicoterapia e/ou farmacoterapia e, em casos mais graves (como risco agudo de suicídio e/ou sintomas psicóticos associados), a eletroconvulsoterapia.

Para pacientes com depressão maior unipolar leve a moderada, é sugerido tratamento de primeira linha com psicoterapia interpessoal (TIP) ou terapia cognitivocomportamental (TCC). No entanto, essas técnicas específicas de psicoterapia dependem da disponibilidade de um profissional treinado para tais abordagens. Caso não haja essa possibilidade na APS, não haja resposta à psicoterapia, a paciente prefira o uso de um medicamento ou a paciente tenha realizado tratamento bem sucedido no passado com um algum psicofármaco, o uso de antidepressivo é uma ótima alternativa. Para pacientes com depressão maior unipolar grave, o quadro muda: sugere-se o uso de antidepressivo como primeira linha de tratamento, embora seja possível instituir o tratamento psicoterápico de forma associada. Quanto à escolha do fármaco, seja em casos de depressão leve, moderada ou grave, depende de a paciente estar ou não amamentando seu bebê. Mulheres que estão amamentando podem usar inibidores seletivos da receptação da serotonina (ISRS), pois são os fármacos mais estudados, especialmente sertralina e paroxetina, pois são os que menos passam para o leite. Outras opções para mulheres que amamentam são: inibidores da receptação da serotonina e da noradrenalina, como venlafaxina, desvenlafaxina e duloxetina, ou bupropiona, mirtazapina e nortriptilina. Para tratamento de mulheres que não estão amamentando, devemos seguir o mesmo raciocínio de escolha para pacientes adultos com depressão, levando em conta experiência de uso, perfil de efeitos adversos, disponibilidade na APS e custo. Em termos diagnósticos, tendo em vista as alterações de humor do período pós-parto, existem duas apresentações tradicionais: uma mais leve e mais comum chamada de “Postpartum Blues” ou “Baby Blues”, ainda sem tradução adequada para o português, e outra chamada de depressão pós-parto. O “Blues” é uma condição benigna que se inicia nos primeiros dias após o parto (dois a cinco dias), dura entre alguns dias e poucas semanas, é de intensidade leve e em geral não requer uso de medicações, pois é autolimitada e cede espontaneamente. Caracteriza-se basicamente pelo sentimento de tristeza e o choro fácil que não impedem a realização das tarefas da mãe. Aproximadamente 50% das mulheres são acometidas pelo “Blues” no pós-parto. Já a depressão pós-parto é mais preocupante. Enquanto a maior parte das mães consegue superar a tristeza inicial, uma mulher com depressão pós-parto fica cada vez mais ansiosa e tomada por sentimentos desagradáveis. Em alguns casos, a mãe já estava deprimida mesmo antes do nascimento da criança e simplesmente continua a ter os mesmos sentimentos. Para outras mulheres, no entanto, a depressão começa semanas ou até meses após o parto. O que parecia ser um prazer, aos poucos começa a parecer um fardo, e a vida se torna pesada ou paralisada. Quando os sintomas, ainda que leves, ultrapassam o período de duas semanas, o diagnóstico mais provável é o de depressão pós-parto, e não de “Blues”. Nesses casos, o tratamento deve ser iniciado o mais rápido possível para que haja melhora. É importante lembrar que alguns casos de transtorno bipolar podem se manifestar no período pós-parto através de depressão. Caso esse transtorno não seja identificado e a paciente use algum antidepressivo, a mulher pode estar em risco de virada maníaca, a qual pode trazer prejuízos significativos. Assim, antes de iniciar o tratamento, é fundamental pesquisar o histórico de alterações de humor, tanto da paciente como de seus familiares, para realizar um diagnóstico mais preciso.