Em pacientes residentes em áreas endêmicas ou contactantes domiciliares de portadores de hanseníase, o uso de quimioprofilaxia é eficaz na prevenção da doença?

O uso da quimioprofilaxia é eficaz em reduzir a incidência de hanseníase, particularmente entre contactantes domiciliares, que possuem um maior risco de desenvolver a doença.
A revisão permite concluir a favor da efetividade do uso de quimioprofilaxia com dapsona e acedapsona na prevenção da hanseníase. Entretanto sabe-se que estes estudos também levantaram uma questão importante: o desenvolvimento de resistência à medicação, quando usada em larga escala e em monoterapia. Surge, portanto um dilema entre uma ação individual e a responsabilidade com a coletividade. Este cenário é parte do cotidiano dos médicos de família e comunidade, sendo sua competência o adequado manejo de cada situação. Estudos mais recentes têm avaliado o uso de outros antimicrobianos na quimioprofilaxia da hanseníase, em especial a combinação de rifampicina, ofloxacina e minociclina. Outra questão relevante é o real efeito da prevenção. O longo período de incubação da hanseníase torna difícil avaliar se os efeitos observados são mesmo decorrentes da intervenção. Além disso, alguns estudos com um follow-up mais prolongado têm demonstrado que a eficácia da quimioprofilaxia parece diminuir com o tempo.

Sumário das evidências A revisão sistemática identificou 14 ensaios, sendo 6 ensaios randomizados, dos quais 4 com o uso de dapsona oral e 2 com o uso de acedapsona intramuscular (Noorden,1977 e Neelan,1986), totalizando 30395 participantes. A duração média dos estudos foi de 4,1 anos, com variação de 2 a 5,5. No maior desses estudos (Wardekar,1969), com n = 25.685, os pacientes não eram contactantes domiciliares de portadores de hanseníase, estando expostos a um menor risco de desenvolver a doença. Já nos outros cinco estudos os pacientes acompanhados eram contactantes domiciliares de portadores de hanseníase lepromatosa ou MB, com exceção de um estudo (Noordeen,1976) onde o paciente índice apresentava forma PB de hanseníase.

Prevenção da Hanseníase Através de Quimioprofilaxia

Estudo n Incidência da doença no grupo medicado* Incidência da doença no grupo controle* RR (IC) NNT
Dharmendra,1965 732 3,80 7,96 0,48 (0,26-0,89) 24
Wardekar,1969 25.686 0,02 0,27 0,08 (0,03-0,27) 393
Noordeen,1969 718 5,86 12,77 0,46 (0,28-0,75) 15
Noordeen,1976 2.000 7,20 10,90 0,66 (0,50-0,88) 27
Noordeen,1977 700 5,14 9,14 0,56 (0,32-0,98) 25
Neelan,1986 560 4,64 10,71 0,43 (0,23-0,81) 17
* – em percentual Os autores da revisão sistemática também apresentam uma meta-análise dos resultados do estudo, onde se nota um risco relativo de 0,46 (efeito protetor), com um intervalo de confiança de 0,32 a 0,66.  

Bibliografia Selecionada

  1. Smith CM, Smith WC. Chemoprophylaxis is effective in the prevention of leprosy in endemic countries: a systematic review and meta-analysis. MILEP2 Study Group. Mucosal Immunology of Leprosy. J Infect. 2000 Sep;41(2):137-42. Disponível em: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0163445300906984. Acesso em: 03 junho 2015