Em pacientes suscetíveis o uso da vacina BCG contribui na prevenção primária da hanseníase?

O uso da vacina BCG em indivíduos susceptíveis à hanseníase parece ser capaz de oferecer alguma proteção, podendo ser uma opção na prevenção primária da doença.
Segundo o Colégio Canadense de Médicos de Família, é uma atribuição destes profissionais a elaboração, execução e avaliação de ações de prevenção primária voltadas à população sob sua responsabilidade.
A vacinação com BCG como prevenção da Hanseníase é um caso que ilustra bem esta situação, principalmente por tratar-se de doença endêmica em nosso meio. Trata-se de uma vacina largamente utilizada mundialmente e ainda controversa. No calendário vacinal adotado no Brasil, a segunda dose, aos 10 anos de idade, deixou de ser recomendada. A segunda dose, apesar de não apresentar benefícios na prevenção da tuberculose poderia ser capaz de reduzir a incidência de novos casos de hanseníase? Os resultados dessa meta-análise (1) parecem responder afirmativamente a essa pergunta. Deve-se levar em consideração na análise dos resultados da meta-análise, que a vacina BCG faz parte do calendário vacinal como prevenção da tuberculose na maioria dos países onde se realizaram estudos. A maioria dos estudos avaliou a vacinação prévia com BCG apenas pela presença ou não da cicatriz vacinal, calculando a prevalência desses indivíduos no grupo estudado. Tal fato pode levar à subestimação do efeito protetor da vacina contra a hanseníase, uma vez que parcela significativa da população estudada, incluindo os controles nos ensaios clínicos, pode já estar sendo beneficiada por efeitos protetores da mesma.

 

Sumário das evidências Esta meta-análise, que incluiu 7 ensaios clínicos e 19 estudos observacionais, demonstrou que a vacina BCG reduziu a incidência das formas clínicas da hanseníase entre os vacinados. Embora os autores chamem atenção para uma heterogeneidade significativa entre os estudos, calculou-se o efeito protetor (1 – RR) com utilização de recursos estatísticos. O mesmo foi estimado em 26% (IC 95% 14-37) nos ensaios clínicos e em 61% (IC 95% 51-70) nos estudos observacionais. O efeito protetor foi maior nos subgrupos de pacientes de mais alto risco de desenvolver a infecção, como naqueles expostos a formas multi bacilares e naqueles com contactantes domiciliares. Também analisando subgrupos dos estudos, não se demonstrou diferença de gênero no efeito da vacina. Com relação à idade de vacinação, nos ensaios clínicos, não houve diferença entre os vacinados em idades inferiores a 15 anos ou com idades superiores aos 15 anos, embora na análise dos estudos observacionais, o efeito protetor máximo tenha sido notado na vacinação em idades abaixo dos 10 anos.

BCG na Proteção Contra a Hanseníase

Ensaios clínicos Follow-up (anos) Casos de hanseníase no grupo vacinado com BCG RR (IC 95%)
Stanley,1981 8 41 / 8.085 0,20 (0,15-0,28)
Lwin,1985 14 663 / 151.415 0,80 (0,72-0,88)
Bagshawe,1989 16 101 / 36.327 0,52 (0,41-0,66)
Fine, 1996 9 93 / 23.456 0,51 (0,25-1,03)
Gupte, 1998 15 3.213 / 484.864 0,76 (0,72-0,79)
Gupte, 1998 5,5 - / 38.213 0,66 (0,50-0,86)
Truoc, 2001 8 8 / 100 0,42 (0,19-0,96)
Sumário da meta-análise 0,74 (0,63-0,86)
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