Existem métodos alternativos baratos e seguros para a higiene bucal em famílias carentes?

Existem sim métodos alternativos para a higiene bucal, mas para responder essa importante questão de forma completa, devemos observar um panorama geral para compreender todos os fenômenos envolvidos. Segundo o Ministério da Saúde, em um levantamento realizado em 2008, 58% da população não tem acesso adequado a escovas de dente. Ou seja, essas pessoas não têm acesso frequente, fazem uso além do período indicado, ou a compartilham entre membros da mesma família, o que é um risco já que as escovas de dente podem ser um meio de transmissão de doenças infecciosas como hepatite A, sífilis e difteria e se tornar veículo de transmissão de parasitas intestinais(1,2). Essa expressiva falta de acesso a meios adequados de higiene bucal(escova, fio dental e dentifrício fluoretado) está estreitamente ligada a fatores socioeconômicos e possíveis dificuldades geográficas, portanto,  meios alternativos são bem-vindos e podem ser muito úteis para a prevenção de cáries e outros problemas causados pela falta de higiene bucal. Alguns estudos da década de 90 já apresentaram opções alternativas para a higiene bucal com bons resultados quando comparado com métodos convencionais. Por exemplo:

No lugar de escova dente convencional:
– Escova de bucha vegetal (6) (escova ecológica)

– Escova de dente feita com esponja de lavar louça – o dispositivo compreende um pedaço de bambu, com 15 cm de comprimento, que possui em uma das extremidades um pedaço da parte macia (amarela) da esponja, com 3 cm de largura e comprimento, por 1,5 cm de espessura, fixado por um barbante fino, com 20cm de comprimento, formando assim, a parte ativa da escova. O barbante é encaixado em duas fendas no bambu, com a finalidade de proporcionar segurança e estabilidade na fixação da esponja(4).

No lugar do fio dental, para remoção de placa interproximal:
– Ráfia e a linha indiana(5)
– Fitas de saco de laranja ou de sacola plástica(6)

O uso de dentifrícios alternativos se torna inviável pois há  recomendações da OMS e outros estudos indicando a necessidade da utilização de dentifrício fluoretado para a manutenção da saúde bucal e o combate a cárie. Até o momento não foram encontrados métodos seguros e com comprovação científica para a utilização de alternativas para a substituição dos dentifrícios convencionais(7).

Um outro fator importante de ser analisado é o custo de produtos de higiene bucal como uma barreira de acesso e uso desses produtos pela população mais vulnerável. Em 2014 um estudo demonstrou que o custo médio da aquisição de produtos de higiene bucal, era de R$ 9,60 ou 2% de um salário mínimo. O maior custo foi verificado para o fio dental (R$ 5,10), seguido pelo dentifrício fluoretado (R$ 2,80) e escova de dente simples (R$ 1,70). Nesse sentido, o uso de métodos alternativos para o fio dental parece ser o melhor caminho a se seguir, devido ao seu alto custo e da comprovação de sua efetividade. O uso de métodos alternativos para as escovas de dente, não faz muito sentido na realidade do município de São Paulo, pois, caso a pessoa não tenha os materiais para elaboração, o custo superará o de uma escova simples convencional. Além disso, o conhecimento de métodos alternativos é na maioria das vezes levado ao público através do cirurgião dentista, nesse sentido, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) fornecem gratuitamente escova e dentifrício fluoretado, após as consultas ou campanhas de promoção de saúde, como o Programa Saúde na Escola (PSE). Assim, recomenda-se que estas informações sejam utilizadas conforme a realidade de cada território, e considerando a grande heterogeneidade do Brasil(8,9).

Bibliografia Selecionada

1. Grigoletto JC, Watanabe MGC, Mestriner Junior W, Bregagnolo JC. Higiene oral e uso compartilhado de escova dental. Rev Odontol UNESP. 2006;35(2):175-181. Disponível em: https://www.revodontolunesp.com.br/article/588017d97f8c9d0a098b493b/pdf/rou-35-2-175.pdf   2. Conselho Regional de Odontologia do Rio Grande do Norte.  58% da população não tem acesso adequado a escovas de dentes. [homepage na internet]. 12 de março de 2009. (acesso em 01 out 2019). Disponível em: https://crorn.org.br/noticias/ver/357   3. Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Levantamento epidemiológico da cárie dentária, oclusopatias e fluorose dentária, em crianças de 5 a 12 anos de idade, em escolas públicas e privadas do município de São Paulo, em 1996. São Paulo: FSP/ USP; 1997.   4. Gonçalves RMG, Silva RHH. Escovação dentária com dispositivo de esponja plástica. RGO (Porto Alegre). 1986;34(6): 457-61.   5. Campos Júnior A, Passanezi E, Serizawa TC, Barros ASA, Navarro MFL, Lopes ES. Análise comparativa entre a fita dental convencional e materiais alternativos. Rev. Odontol. Univ. São Paulo 1990;4(1):59-61.   6. Pereira LCG, Orosco FA, Borges AS, de Paula BC, Faquim GMP, Prado TF. Conhecimentos e opiniões de uma população em relação aos métodos alternativos de higiene bucal em atividades de extensão. Revista Ciência em Extensão. 2014;10(2):36-46. Disponível em: https://ojs.unesp.br/index.php/revista_proex/article/view/962   7. Petersen PE. Global policy for improvement of oral health in the 21st century – implications to oral health research of World Health Assembly 2007, World Health Organization. Community Dent Oral Epidemiol. 2009; 37(1):1-8. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/j.1600-0528.2008.00448.x   8. de Souza LMM, da Nóbrega LM, Barbosa KGN, Carneiro FG, Bento PM, DAvila S. Avaliação do consumo e custo de produtos de higiene bucal para população de um município no Nordeste brasileiro. Arq Odontol. 2014;50(2):86-91. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/arquivosemodontologia/article/view/3654   9. Prefeitura da Cidade de São Paulo. Saúde oferece serviço de odontologia nas UBS. [homepage na internet].  03/06/2019. [acesso em 01 out 2019]. Disponível em: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/saude/noticias/?p=277721