O que é pseudo-hipertensão e como devemos realizar a manobra de Osler ?

A medida da pressão arterial no indivíduo idoso apresenta uma série de particularidades, entre elas a maior variabilidade dos valores obtidos devido às alterações nos barorreceptores, o que pode dificultar o diagnóstico e o seguimento. São, portanto, necessárias mais medidas em várias consultas e fora delas também, devido a maior prevalência do efeito do avental branco. Na obtenção da medida em si, são mais freqüentes os achados do hiato, o que pode caracterizar a pseudo-hipertensão. Com a idade ocorre o aumento da rigidez dos vasos, com redução das fibras elásticas e aumento do colágeno, mas se este processo for mais acentuado, seja pela calcificação da camada média da artéria ou por aterosclerose, haverá dificuldade em comprimir esta artéria com a insuflação do manguito e a pressão verificada será maior do que a intra-arterial.
O diagnóstico de pseudo-hipertensão, presente em muitos pacientes idosos, pode ser esclarecido com manobras simples. Esse diagnóstico decorre da rigidez das artérias, com calcificação, com sequente à idade avançada. No caso, ao inflar o manguito, podemos encontrar valores falsamente elevados de pressão arterial, em decorrência da dificuldade para ocluir a artéria braquial. Então, podemos recorrer à manobra de Osler. Tal manobra consiste em inflar o manguito até que ultrapasse a pressão sistólica. Caso a artéria braquial ou radial do membro em que está sendo insuflado o manguito permaneça palpável, considera-se Osler positivo. Se não for mais palpada, significa que colapsou e, portanto, considera-se Osler negativo. A positividade da manobra indica que o vaso é rígido e existe a possibilidade de estarmos diante de um caso de pseudo-hipertensão. Contudo, resposta definitiva só poderá ser obtida com a medida direta da pressão arterial. Em tais casos, não se exclui o diagnóstico de HAS, mas, eventualmente, os níveis tensionais são menores que os medidos pela técnica indireta.
A prevalência da manobra de Osler positiva varia com a faixa etária, sendo cerca de 3% em indivíduos de 60 a 70 anos, mas de aproximadamente 44% nos idosos de 86 a 90 anos. Sua ocorrência é mais comum, portanto, naqueles com 70 anos ou mais, ocorrendo também mais freqüentemente em tabagistas, indivíduos com a pressão sistólica muito elevada, com pressão de pulso maior (diferencial entre sistólica e diastólica), havendo discordância dos dados em relação ao sexo. Alguns autores encontraram prevalência igual à da manobra positiva em mulheres e homens e outros referem maior prevalência nos últimos. Existem resultados conflitantes também no que tange à reprodutibilidade do método. Quando há mudança de observador, os resultados podem não coincidir. O que se pode concluir é que o treinamento para tal manobra é importante e melhora o seu poder de rastreamento.
Observamos que poucos em nosso meio valem-se desta elegante manobra, geralmente por desconhecê-la. Mesmo considerando que a presença da manobra de Osler positiva possa não indicar necessariamente a presença de pseudo-hipertensão, visto não ser infalível, ela auxilia no diagnóstico e na avaliação do controle da pressão após o uso de medicamentos na população mais idosa.

 

 

Bibliografia Selecionada

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à saúde. Departamento da Atenção à Saúde Básica. Hipertensão arterial sistêmica. Brasília: Ministério da Saúde; 2006. (Cadernos de Atenção Básica, n. 15). Disponível em: http://dab.saude.gov.br/docs/publicacoes/cadernos_ab/abcad15.pdf. Acesso em: 09 abr 2015
  2. Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 3a ed. Porto Alegre: Artmed; 2004.
  3. Schmidt A; Pazin Filho A, Maciel BC. Medida indireta da pressão arterial sistêmica. Medicina (Ribeirão Preto). 2004 Jul-Dez; 37:240-5.