Quais cuidados domiciliares são importantes para pessoas com Síndrome de Guillain-Barré?

Os cuidados com o paciente com Síndrome de Guillain-Barré dependem muito do grau de comprometimento e das condições gerais do paciente. Em vias gerais, podemos listar alguns cuidados que são importantes, principalmente para orientar a família no cuidado domiciliar(1):

· Prevenção de broncoaspiração: eventualmente o paciente pode receber alta hospitalar mantendo sonda para alimentação ou traqueostomia. É importante adotar medidas para evitar broncoaspiração, como manutenção de posição sentada durante a administração da dieta e, pelo menos, por no mínimo 30 minutos após (dependendo da posição da sonda, se no intestino delgado). Orientar a família/cuidador sobre os procedimentos corretos para aspiração de traqueostomia, troca de curativo e fixação. Esses cuidados são importantes para evitar complicações, como hipóxia devido à obstrução ou até mesmo desenvolvimento de miíase por falta de higiene/troca de curativos na traqueostomia;

· Alimentação e hidratação: evitar pular horários de alimentação, principalmente se o paciente estiver usando sonda para se alimentar. Se fizer uso de sonda, é importante lembrar-se de oferecer água após a administração da dieta e nos intervalos entre refeições. Deve-se orientar, nestes casos, o cuidado com a manutenção da sonda, evitando que ela obstrua ou desloque (saia do lugar). Seria ideal a realização de treinamentos com fonoaudiólogo para deixar o uso da sonda e iniciar a ingestão de alimentos por via oral. O ideal seria que essa reabilitação ocorresse antes da alta hospitalar, porém, às vezes não é possível. Hidratação e nutrição influenciam no desenvolvimento de lesões por pressão, caso não sejam oferecidas em quantidade e qualidade suficiente;

· Prevenção de lesão por pressão: é fundamental realizar mudança de decúbito regularmente para evitar a formação de lesões por pressão (LPP). Dessa forma, a enfermagem pode orientar a família/cuidador a mudar o paciente de posição a cada 2 horas durante o dia e  pelo menos a cada 3/4 horas durante a noite. O cuidado com o uso de fraldas, em casos específicos, também deve ser ensinado – não permanecer com fralda molhada ou com fezes por muito tempo, pois a umidade excessiva somada à acidez e temperatura é prejudicial para a integridade da pele;

· Fisioterapia: o paciente que está em recuperação da Síndrome de Guillain-Barré deve fazer fisioterapia motora para recuperar os movimentos e evitar atrofias motoras. A fisioterapia respiratória é muito importante, principalmente na fase de internação onde o paciente está necessitando de mais cuidados respiratórios. É fundamental que se faça fisioterapia motora em todas as fases da doença para evitar que o paciente desenvolva atrofias e contraturas. Dispositivos com talas ou botas podem auxiliar na prevenção da formação de deformidades, como o pé equino;

· Prevenção de trombose venosa profunda: é recomendável a realização de doppler em MMII para avaliar o condicionamento do sistema vascular. Como cuidado pode-se adotar o uso de meias compressivas. Mas cuidado: a indicação do nível de compressão da meia deve ser feita por especialista mediante avaliação. Caso haja condições para custeio, o dispositivo de compressão pneumática mostra-se muito eficiente;

· Controle da dor: durante a recuperação, o paciente pode sentir dor. A dor ocorre por causa do processo de desmielinização dos nervos e para seu tratamento é necessário uso de analgésicos prescritos por médico. É bom administrar o analgésico antes das sessões de fisioterapia, pois os movimentos realizados podem induzir dor;

· Outros cuidados: monitorar sinais vitais, como pressão arterial, frequência cardíaca; realizar balanço hídrico; estabelecer método de comunicação, quando a comunicação verbal estiver prejudicada; prevenir quedas, principalmente enquanto o paciente ainda não for capaz de caminhar sem auxílio.

O cuidado relacionado ao paciente com Síndrome de Guillain-Barré na Atenção Primária em Saúde deve considerar, principalmente, o atributo da longitudinalidade, pois exige um acompanhamento regular de atenção à saúde ao longo do tempo. A coordenação do cuidado também é um atributo essencial, pois a atenção primária deve ser capaz de integrar o cuidado que o paciente recebe por meio da coordenação entre os serviços. A Síndrome de Guillain-Barré é uma doença auto-imune caracterizada por uma polirradiculoneuropatia (infecção dos nervos periféricos) desmielinizante (dano na bainha de mielina que reveste os neurônios) inflamatória aguda causando fraqueza de caráter ascendente (dos pés para a cabeça) e progressivo. É a principal causa de paralisia flácida aguda e arreflexa (ausência de reflexos) no mundo. O quadro clínico sugestivo, aliado a uma dissociação proteíno-citológica (aumento da proteína) no líquor a partir da segunda semana da doença, e eletroneuromiografia (exame que avalia as condições dos nervos) característica fortalecem o diagnóstico. Podem existir sintomas sensitivos, porém os sinais e sintomas motores são proeminentes. Em cerca de 60% a 70% dos casos há alguma doença aguda precedente – sendo a mais comum a gastroenterite por Campylobacterjejuni. Os sintomas progridem por até 4 semanas, sendo a necessidade de ventilação mecânica uma necessidade para até 30% dos pacientes em alguns relatos. Apenas 15% dos pacientes passam pela doença sem nenhuma sequela residual. As taxas de mortalidade variam entre 5% e 7% dos casos, geralmente consequente à insuficiência respiratória, infecções respiratórias por broncoaspiração, arritmias e sepse. O tratamento precoce específico, com uso de imunoglobulina endovenosa e\ou plasmaférese, é fundamental para a estabilização da doença e reversão dos déficits. É imprescindível que o paciente faça acompanhamento com neurologista mesmo após a alta hospitalar. O atendimento por equipe interprofissional (enfermagem, medicina, fisioterapia, nutrição, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia) também é essencial.

Bibliografia Selecionada

  1. Cheevre, Keeery H. Manejo de clientes com infecções neurológicas. distúrbios autoimunes e neuropatias. in: Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-cirúrgica, Vol. II. 13ª Ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016:2029-2055.
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias e Inovações em Saúde. Coordenação de Gestão de Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Guillain-Barré. Brasília. Ministério da Saúde, 2020:27p. (Acesso em 03 de março de 2021). Disponível em: http://conitec.gov.br/images/Consultas/Relatorios/2020/Relatorio_PCDT_Sindrome_de_Guillain_Barre_CP_26_2020.pdf
  3. Moraes A, Casarolli ACG, Eberhardt TD, Hofstatter LM. Caracterização dos pacientes com síndrome de Guillain-Barré internados em um hospital universitário. Revista Enfermagem Contemporânea. 2015;4(1):7-11. (Acesso em 22 fev. 2021). Disponível em: https://www5.bahiana.edu.br/index.php/enfermagem/article/view/532