Qual a conduta para dermatite em gestantes ?

Tanto em casos de dermatite atópica e dermatite de contato a conduta é similar a destinada à população geral, apenas devendo-se ter atenção com o diagnóstico diferencial de eczema herpético (Vide na complementação) e evitar alguns tratamentos conforme indicado a seguir.

Segurança dos medicamentos para dermatites na gestação (adaptado de Weatherhead et.al., 2007) :(1) Tratamentos de dermatites na gravidez: Seguro ●Emolientes (hidratantes) ●Esteróides tópicos (leves, moderados ou potentes) ●Ultravioleta B Relativamente seguro (cautela) ●Esteróides tópicos muito potentes (pequenas quantidades) ●Esteróides orais (no terceiro trimestre) ●Ciclosporina * ●Azatioprina ●Inibidores de calcineurina tópicos (pequenas quantidades) Evitar ●Metotrexato * ●Psoralenos e ultravioleta A (PUVA) * *ATENÇÃO: Evite em mães que amamentam. Complementação: A dermatite (eczema) é a dermatose mais comum da gravidez, sendo responsável entre um terço e metade dos casos. Estima-se que apenas 20-40% dos pacientes tenham uma história pré-existente de eczema; o restante desenvolve sintomas pela primeira vez durante a gravidez. Três quartos desses pacientes desenvolvem sintomas nos dois primeiros trimestres. A prevalência total de eczema na gravidez é desconhecida.(1) Pouca ou nenhuma evidência existe para sugerir que o eczema afeta diretamente a fertilidade ou as taxas de aborto espontâneo, defeitos congênitos ou parto prematuro. No entanto, a infecção secundária da pele pelo vírus herpes simplex causa eczema herpético e embora o eczema herpético não tenha sido relatado como causa de infecção intra-uterina até o momento, o vírus herpes simplex está associado a parto prematuro, restrição do crescimento intrauterino e aborto espontâneo.(1) Diferenças conceituais básicas: É fundamental uma boa história clínica buscando entender se o quadro é anterior ou surgiu durante a gestação. Basicamente pode-se abordar duas situações clínicas mais comuns. 1. Dermatite Atópica (DA).(2) É a expressão cutânea do estado atópico, caracterizada por história familiar de asma, rinite alérgica ou eczema. Independentemente de outras manifestações, o prurido é uma característica proeminente da DA em todas as faixas etárias e é exacerbado pela pele seca. Muitos dos achados cutâneos em pacientes afetados, como a liquenificação, são secundários a fricção e o ato de coçar. Visão geral do tratamento:(3) Usar uma abordagem gradual para melhorar os sintomas e obter controle da doença a longo prazo com base na gravidade da doença Avaliar a gravidade da doença por extensão do envolvimento da pele, presença de lesões ativas e liquenificação, e gravidade dos sintomas. Fornecer educação estruturada sobre o curso da doença e tratamentos para os pacientes. Para todos os pacientes Aconselhar emolientes (hidratantes) como um dos pilares do tratamento para melhorar o reparo contínuo da barreira epidérmica : Aplique hidratantes logo após o banho para melhorar a hidratação da pele. Comentário: Pode-se optar por hidratantes de venda livre (sem prescrição médica) mais acessíveis e fáceis de encontrar. Substitua sabonetes, banhos de espuma e géis de banho com produtos sem sabão, sem fragrância com pH neutro ou baixo, o que ajuda a evitar reações alérgicas ou irritações. Avaliar se há suspeitas de alergias ambientais e alimentares e aconselhar evitar os fatores desencadeantes ou irritantes se houver uma reação clínica clara após a exposição. Recomenda-se evitar alimentos em pacientes com alergia verdadeira mediada por imunoglobulina E. Usar esteróides tópicos nas áreas ativas como tratamento de primeira linha: Selecionar a potência do esteróide tópico com base na gravidade e localização da dermatite atópica. Usar de baixa potência, tal como desonida gel a 0,05%, creme ou unguento, ou espuma; ou fluocinolona (genérica) creme a 0,01% duas vezes ao dia para dermatite atópica leve ou ainda hidrocortisona 0,2% creme ou pomada. Usar potência média, tal como creme ou loção de valerato de betametasona (Beta-Val) a 0,1%; ou propionato de fluticasona (Cutivate) creme a 0,05% duas vezes ao dia para dermatite atópica moderada. 2. Dermatite de contato (DC) A dermatite de contato é um processo inflamatório da pele causado por um agente ou agentes exógenos que direta ou indiretamente lesionam a pele. As lesões clínicas da dermatite de contato podem ser agudas (úmidas e edematosas) ou crônicas (secas, espessadas e escamosas), dependendo da persistência da agressão.(4) Visão geral do tratamento:(4) O pilar da abordagem é identificar e evitar a precipitação causada por alérgenos ou irritantes Para erupção cutânea e sintomas, use corticosteróides tópicos como tratamento de primeira linha para dermatite de contato localizada ou leve a moderada Esteróides tópicos aplicados duas vezes ao dia normalmente eficazes em poucos dias. Corticosteróides tópicos potentes ou moderadamente potentes parecem eficazes para a dermatite alérgica de contato. Para todos os pacientes Evite esteróides tópicos de alta potência em áreas faciais, flexurais ou intertriginosas. Evidência limitada em relação aos esteróides tópicos para dermatite de contato irritativa. Se for alérgico a um grupo de corticosteróides, pode mudar para outro grupo. Considerar corticosteróides sistêmicos para dermatite de contato alérgica grave ou disseminada ou envolvimento da face ou membranas mucosas. Comentário: Considerar encaminhar o caso pois apesar de seguro, pode ser preciso uso de corticóide por longos períodos. Aconselhar intervenções paliativas, como compressas frias ou “banho” de aveia para reduzir os sintomas de erupções cutâneas secas. (Nota: Neste caso pode fazer uma “papinha” com farinha de aveia. Não estranhe pois é citado numa referência científica no Dynamed).(3) Atributos da APS Integralidade do cuidado: O exames complementares e medicamentos representam uma parte importante do cuidado, mas a conduta deve ser entendida como algo mais amplo, que envolve medidas comportamentais e de cuidado com o ambiente domiciliar e de trabalho. Longitudinalidade: O acompanhamento ao longo do tempo permite è equipe de saúde da família acompanhar a evolução de problemas de forma a evitar encaminhamentos precipitados ou postergados desnecessariamente. O fato de um mesmo profissional acompanhar a evolução de uma pessoa com uma condição crônica desde o nascimento permite a percepção imediata de problemas novos ou mudanças, em qualquer fase do ciclo de vida.