Qual a recomendação sobre o teste de Schiller para rastreamento de lesão precursora de câncer de colo de útero?

Não existe evidência científica para o uso do Teste de Schiller como medida de rastreamento para lesões precursoras de câncer de colo de útero. O método de rastreamento do câncer do colo do útero e de suas lesões precursoras considerado padrão-ouro1 é o exame citopatológico (Grau A)2. O início da coleta deve ser aos 25 anos para as mulheres que já iniciaram vida sexual, e o intervalo entre os exames deve ser de três anos, após dois exames negativos com intervalo anual (Grau  A)2. Os exames devem seguir até os 64 anos e serem interrompidos quando, após essa idade, as mulheres tiverem pelo menos dois exames negativos consecutivos nos últimos cinco anos (grau B)2.
De acordo com um estudo realizado em São José, SC, em 2008, a aplicação do teste de Schiller, mediante a coleta do citopatológico, para rastreamento das lesões precursoras do câncer do colo uterino, devido à baixa especificidade do teste de Schiller, apresentou-se como um método com validade limitada na população estudada3.
A inspeção visual do colo uterino com iodo se baseia em sua capacidade de reagir com o glicogênio intracelular do epitélio escamoso maduro que fica de cor castanha escura ou preta. O teste é positivo quando o epitélio desprovido de glicogênio não se cora, como nas lesões intraepiteliais de alto grau e carcinoma invasivo. Entretanto, a especificidade da inspeção visual do colo uterino com iodo é baixa, já que o epitélio colunar normal, áreas de erosão das camadas superficiais e intermediárias do epitélio escamoso e inflamação intensa também não se coram. Alguns epitélios podem corar-se apenas parcialmente, dependendo da quantidade de glicogênio presente, como áreas de metaplasia imatura, epitélio atrófico, condilomas ou lesões intraepiteliais de baixo grau, podendo resultar em um aspecto salpicado marrom-iodo malhado4.
Dessa forma, a alteração no teste de Schiller não significa, necessariamente, a presença de lesão suspeita de neoplasia, devendo ser correlacionada com outros exame, assim como, se necessário, a colposcopia5.
O teste de Schiller não é recomendado como exame de rastreamento, mas, por ter a possibilidade de aumentar as suspeitas de lesão pré-cancerosa, pode ser utilizado como teste auxiliar na avaliação clínica durante o exame citopatológico.

Para qualificar a prevenção do câncer do colo de útero, é importante implementar programas de rastreamento eficazes em que a equipe de saúde seja capaz de avaliar a periodicidade da realização dos exames pela população, assim como realizar busca ativa daqueles que estão com falhas no rastreamento. Para isso, o Sistema de Informação do Câncer – SISCAN - pode ser utilizado como instrumento facilitador para um rastreamento organizado6. O atributo da atenção primária de longitudinalidade convoca as equipes de saúde da família a conhecerem o histórico de saúde de sua população para os acompanharem por toda a vida de forma qualificada. Isso significa que, conhecendo a história de rastreamento das mulheres de sua abrangência, a equipe tem a possibilidade de decidir pela melhor forma de avaliar a mulher naquele momento.

Bibliografia Selecionada

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Rastreamento. – Brasília: Ministério da Saúde, 2010. Disponível em: <http://189.28.128.100/dab/docs/publicacoes/cadernos_ab/abcad29.pdf>. Acesso em: 08/03/2016.
  2. Brasil Coordenação Geral de Ações Estratégicas. Divisão de Apoio à Rede de Atenção Oncológica. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero/Instituto Nacional de Câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2011. Disponível em: <http://www1.inca.gov.br/inca/Arquivos/Diretrizes.PDF>. Acesso em: 08/03/2016.
  3. RUSSO, E. Desempenho Diagnóstico do Teste de Schiller no Programa de Prevenção e Detecção Precoce do Câncer de Colo Uterino em São José –SC. Dissertação (Mestrado em Saúde Pública – Área de Concentração em Epidemiologia) – Programa de Pós Graduação 3 em Saúde Pública, Universidade Federal de Santa Catarina, 2008. Disponível em: <http://livros01.livrosgratis.com.br/cp066067.pdf>. Acesso em: 08/03/2016;
  4. Ramos, E. A importância do teste de Captura Hibrida 2 no acompanhamento de pacientes tratadas por Lesão Intraepitelial cervical de alto grau. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal da Bahia - Fundação Oswaldo Cruz, Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz. Pós-Graduação em Patologia Humana, 2013. Disponível em: <https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/7137>. Acesso em: 08/03/2016.
  5. SOF Em que casos são indicados realizar o Teste de Schiller? Disponível em: < http://aps.bvs.br/aps/em-que-casos-sao-indicados-realizar-o-teste-de-schiller/> Acesso em: 08/03/2016.
  6. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva.Sistema de informação do câncer: manual preliminar para apoio à implantação. Rio de Janeiro: INCA, 2013. Disponível em: <http://www.fosp.saude.sp.gov.br:443/docs/Siscam/siscan_%20manual_preliminar.pdf> Acesso em: 08/03/2016.