Que ações poderiam aumentar a cobertura de exames citopatológicos de colo uterino, frente ao constrangimento das mulheres em realizar a coleta por profissional do sexo masculino (enfermeiro)?

A percepção de mundo de cada pessoa é influenciada por seus valores, sua cultura, sua raça, suas experiências vividas, suas crenças, suas expectativas de vida e ideias pré-concebidas e construídas ao longo de sua vida.
Este modo de ser, viver, sentir e perceber o mundo traduz-se nos comportamentos observáveis de um indivíduo ou de uma coletividade frente às diversas situações cotidianas, entre elas, as que envolvem o processo saúde-doença. O que leva a refletir que a busca pelo exame Papanicolaou pode depender do seu significado para as usuárias e a partir de como o profissional conduz a relação de cuidador e orientador para com elas.
Cada mulher é um ser único e possui sua própria singularidade e compreensão sobre o contexto que envolve o exame citopatológico. Um procedimento, a princípio simples aos olhos do profissional, pode ser percebido pela mulher como uma experiência agressiva, tanto física quanto psicologicamente, pois a mulher, que busca o serviço, traz consigo suas bagagens social, cultural, familiar e religiosa.
A seguir estamos disponibilizando sugestões que podem ser realizadas na unidade para aumentar a adesão destas usuárias às coletas de CP.
Para que tenhamos sucesso de adesão às coletas de CP, é necessário e importante realizarmos projetos educativos (grupos), enfatizando a importância do empoderamento, do autocuidado das usuárias a fim de minimizar essas questões.
No momento que elas recebem orientações sobre autocuidado, sobre câncer de mama, câncer de útero, doenças sexualmente transmissíveis, sinais e sintomas de doenças relacionadas ao aparelho reprodutor feminino, educação sexual, climatério, métodos anticoncepcionais, etc, elas passam a adquirir confiança na pessoa (enfermeiro), que está conduzindo o grupo e começam a se dar conta da importância de se cuidar e de se prevenir das doenças.
Sugerimos que o grupo seja realizado na forma de conversação, onde elas começam a falar sobre determinado assunto e o enfermeiro complementa com a parte técnica e científica.
Outra possibilidade de contornar esta situação de constrangimento das pacientes é o enfermeiro atender, fazer as perguntas necessárias, no momento do exame, ele sai da sala, a paciente retira a roupa, coloca a camisola, deita na mesa e o enfermeiro retorna na companhia de uma técnica de enfermagem que ira auxiliá-lo e poderá estar conversando com a paciente para tranquilizá-la.
Fortalecer o vinculo entre o profissional e as pacientes é o melhor caminho a seguir, o profissional deve enfatizar a importância do exame e do tratamento precoce caso seja necessário.
Segundo algumas autoras, após desenvolverem um trabalho qualitativo sobre a coleta de CP, com usuárias da rede SUS chegaram à seguinte conclusão: o exame ginecológico, em especial o exame de prevenção do câncer de colo do útero, foi o exame mais citado pelas mulheres como temido e vergonhoso. Este fato pode ser definido como Evitamento do Exame Ginecológico.
As autoras relacionaram este evitamento aos fatores culturais de desvalorização da feminidade; educação/informação sexual inadequada ou inexistente e ainda, ao desconhecimento, medo e à vergonha em relação aos genitais e ao exame ginecológico.
Esta realidade pode ser determinada e potencializada pela falta de espaços suficientes de reflexão para as mulheres incorporarem e analisarem temas que integrem o seu mundo emocional e afetivo, assim como os processos de autoconhecimento e empoderamento. Estes espaços poderiam ser uma ferramenta de prevenção de situações de agravos melhor trabalhadas pelos profissionais de saúde, no sentido de preparar psicologicamente a mulher, durante o acolhimento, devendo ser discutidas de acordo com cada cultura, respeitando a sexualidade feminina e evitando, assim, bloqueio na esfera da subjetividade.

 

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Bibliografia Selecionada

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  3. Pelloso SM, Carvalho MDB, Higarashi IH. Conhecimento das mulheres sobre o câncer cérvico-uterino. Acta Sci. Health Sciences. 2004;26(2):319-24.