Qual o diagnóstico diferencial e tratamento dos sopros cardíacos na infância?

Muitas crianças normais apresentam sopros cardíacos, mas a maioria destas crianças não tem cardiopatia concomitante. Um estudo demonstrou que 61% das crianças com sopro referenciadas para especialistas apresentavam sopros funcionais (ou inocentes).
História e exame físico adequados podem identificar crianças com risco aumentado de doença cardíaca significante e definir a necessidade de encaminhamento. A caracterização dos sopros inocentes e patológicos pode ser obtida sem necessidade de exames complementares, na grande maioria dos casos (1).
Contudo, o exame do sistema cardiovascular vai além da ausculta cardíaca, e alterações como diferenças na palpação dos pulsos, são sugestivas de doenças e devem ser valorizadas.
Especial atenção deve ser dada às crianças com dificuldade de alimentação, déficit de crescimento, sintomas respiratórios ou cianose. Em crianças mais velhas deve-se valorizar dor precordial (especialmente com exercício), síncope, intolerância ao exercício ou história familiar de morte súbita em pessoas jovens(2).
O sopro cardíaco inocente é a alteração da ausculta que ocorre na ausência de anormalidade anatômica e/ou funcional do sistema cardiovascular, sabendo-se que 50% a 70% das crianças terão, em algum momento da infância e adolescência, uma alteração auscultatória que será reconhecida como sopro, a maioria na idade escolar (3).
São mais facilmente audíveis nos estados circulatórios hipercinéticos; são sistólicos ou contínuos; nunca ocorrem isoladamente na diástole; têm curta duração e baixa intensidade (1+/4+); não se associam a frêmito ou a ruídos acessórios (estalidos, cliques); localizam-se em uma área pequena e bem definida e não se associam a alterações de bulhas. Os sopros inocentes mais freqüentes na criança são sopro vibratório de Still, de ejeção pulmonar, de ramos pulmonares, supraclavicular e zumbido venoso.
A origem dos sopros inocentes ainda é controversa (3).
Abaixo, segue uma tabela com os principais diagnósticos diferenciais do sopro inocente.

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A maioria das doenças cardíacas estruturais significantes é identificada nas primeiras semanas de vida(4). Alteração no padrão de crescimento e/ou desenvolvimento, embora inespecífica, sugere uma doença grave, cardíaca e/ou em outros sistemas, e não sopro inocente. Outros achados que sugerem cardiopatia grave são: arritmias cardíacas, cianose, crises hipoxêmicas, síncope, dor torácica, dificuldade para se alimentar e/ou sudorese excessiva de pólo cefálico, intolerância aos exercícios, cefaléia e hipertensão arterial (principalmente em crianças de baixa idade), taquipnéia, edema e hepatoesplenomegalia(1).
Todos os sopros com intensidade maior que 3+/6 são patológicos, assim como os sopros diastólicos (com exceção do zumbido venoso) e necessitam de encaminhamento para avaliação especializada. A detecção de alteração auscultatória no recém-nascido ou na criança nos primeiros seis a 12 meses de vida necessita uma investigação mais detalhada, mesmo sabendo-se da existência de sopro inocente nesta faixa etária. Alguns autores recomendam encaminhamento para especialista focal(1).
O sopro inocente não necessita de tratamento e o tratamento do sopro patológico depende da sua etiologia.