Qual o protocolo para atendimento odontológico ao paciente com diabetes mellitus e doença periodontal?

No que se refere ao atendimento odontológico de paciente com diabetes mellitus (DM) e doença periodontal, os estudos têm demonstrado que o tratamento da periodontite por meio da terapia mecânica convencional (raspagem e alisamento radicular), além de promover a melhora na saúde periodontal é capaz de também promover melhorias na saúde sistêmica. Inclusive, quando avaliada a redução de hemoglobina glicada (HbA1c) por essa terapia, há estudos que evidenciam que a terapia periodontal pode levar à redução do uso de medicação pelo paciente para controle glicêmico, além de evitar complicações cardiovasculares, pois também tem sido relacionada à redução da proteína C reativa (PCR) e do perfil lipídico nestes indivíduos, o que pode contribuir para a redução da morbidade e mortalidade associada ao DM(1,2).

Para monitorar o sucesso do tratamento da doença periodontal e a resolução da inflamação, além do exame radiográfico, o exame clínico bucal deve incluir alguns índices periodontais essenciais que são analisados ​​com o auxílio de sonda periodontal. Os parâmetros geralmente analisados ​​são profundidade de sondagem, nível de inserção clínica, índice de placa e índice de sangramento gengival à sondagem(3).

A interprofissionalidade é de extrema importância durante o atendimento destes pacientes. É necessária a troca de conhecimento e informações entre todos os profissionais envolvidos com o atendimento de um paciente com DM e doença periodontal. Esse processo de aproximação e troca entre profissionais como médico, dentista, nutricionista, educador físico, dentre outros, contribui imensamente com a melhora clínica da saúde geral e bucal dos indivíduos acometidos pela associação de ambas as doenças.

As implicações da periodontite no meio bucal e na manutenção dos dentes afetados, por si só, justificariam a relevância de se buscar o entendimento de sua etiopatogenia e, a partir disso, implementar formas ativas de terapia individualizada. Porém, além das implicações da doença na saúde bucal, elas também atingem proporções sistêmicas. As doenças periodontais têm sido associadas a um controle glicêmico reduzido. A periodontite aumenta o risco de incidência de diabetes em pacientes não diabéticos(4), bem como aumenta a resistência à insulina em pacientes com DM e complicações da doença, incluindo mortalidade(5,6). A terapia periodontal mecânica há décadas é o tratamento convencional da periodontite e envolve a remoção de agentes bacterianos do periodonto presentes no biofilme e cálculo supra/subgengival, por meio de raspagem e alisamento radicular utilizando curetas periodontais ou dispositivos ultrassônicos(7). Há evidências consideráveis ​​de que o tratamento periodontal não cirúrgico, além de promover a redução da inflamação clínica local, pode reduzir os níveis séricos de espécies reativas de oxigênio, proteína C reativa (PCR) e de citocinas pró-inflamatórias como o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e algumas interleucinas (IL) como IL-1β e IL-6(4,8-19). Pacientes com DM geralmente apresentam elevação de HbA1C no soro, e estudos atuais sobre a relação entres as duas doenças têm mostrado que a terapia periodontal pode melhorar o controle dos níveis de HbA1C. A magnitude das reduções de HbA1C relatadas varia de 0,27% a 0,48% em 3-4 meses após a terapia periodontal(19), o que significa a mesma quantidade de redução de HbA1C de curto prazo obtida àquela frequentemente alcançada pela adição de um segundo medicamento a um regime farmacológico(20). Se essas reduções puderem ser sustentadas por um longo prazo após a terapia periodontal, isso pode contribuir para a redução da morbimortalidade associada ao DM. É de extrema relevância que os profissionais de saúde como médicos, estejam cientes da periodontite e suas implicações no controle glicêmico e nas complicações em indivíduos com diabetes. O diagnóstico de periodontite deve ser parte integrante de uma consulta de pacientes com diabetes e que estes indivíduos devem ser referenciado para um exame periodontal detalhado por um dentista. Mesmo sem periodontite diagnosticada inicialmente, uma revisão periodontal anual é recomendada. Todos os pacientes com DM devem receber educação em saúde bucal como parte de seu programa educacional geral(4). Por outro lado, os dentistas devem atentar para a identificação de pré-diabetes e diabetes mellitus não diagnosticado porque a periodontite pode aumentar o risco de muitas complicações do diabetes como retinopatia, nefropatia, ulceração neuropática do pé, doenças cardiovasculares e mortalidade(21).