Qual o tratamento da constipação intestinal em menores de um ano de idade?

A maior parte das crianças que se apresentam com constipação tem constipação funcional. Contudo, raramente a constipação tem causa orgânica (mais comum no período neonatal). Nestes casos, o tratamento deve ser direcionado para a patologia de base (1).
Alguns sinais de alerta relacionados com constipação de causa orgânica são: perda de peso, distúrbio do crescimento, distensão e dor abdominal significativa, vômitos, fezes finas ou em fitas, fissuras anais persistentes ou fístulas perianais, reflexo cremastérico abolido, infecções urinárias de repetição, etc. (1)
Nesta revisão, abordaremos o tratamento da constipação funcional em crianças menores de um ano.
Não existe consenso na literatura sobre a definição de constipação, mas, de uma forma abrangente, pode ser definida como “um atraso ou dificuldade na defecação, por 2 semanas ou mais, suficiente para causar desconforto ao paciente”.
O tratamento deve incluir quatro etapas:

  1. Educação e informação dos pais sobre o problema
  2. Catarse inicial (ou desimpactação)
  3. Implementação de um programa de reeducação do hábito intestinal
  4. Prevenção da retenção de fezes, sobretudo através de uma dieta rica em fibras.

A educação dos pais e cuidadores é um componente importante do tratamento da constipação funcional . O medo de evacuações dolorosas é o fator determinante mais comum para a retenção fecal. Retardar a evacuação promove o endurecimento das fezes, que por sua vez aumenta a dor e o desconforto no momento da evacuação, o que – configurando um ciclo vicioso – retarda ainda mais a defecação pelo medo da dor e do desconforto. Eventualmente o adiamento da defecação também pode fazer parte de um comportamento opositor(1).
A catarse inicial (ou desimpactação) pode ser obtida através de enemas, supositórios ou medicações orais (3). Não foram encontrados ensaios clínicos randomizados que comparassem os diferentes métodos. A catarse com enemas é rápida, mas também invasiva e possivelmente traumática para a criança. Na criança até 1 ano de idade, o uso do supositório de glicerina é uma boa opção, visto que é menos traumático que o enema, não apresentando efeitos colaterais significativos (2).
É importante documentar em um “diário” todas as evacuações da criança, especialmente no que diz respeito à freqüência e quantidade, para facilitar a avaliação do tratamento de manutenção e avaliar a probabilidade de impactação fecal (2).
O objetivo do tratamento de manutenção é manter evacuações (2-3 vezes/dia) de fezes macias (1). Modificações dietéticas são essenciais para crianças com constipação funcional. Alguns alimentos em especial auxiliam na manutenção de um hábito intestinal regular, como por exemplo: vegetais folhosos (alface, agrião, brócolis, couve, espinafre), frutas (abacaxi, ameixa, abacate, coco, laranja, mamão, melancia, melão, uva), legumes (moranga, pepino, tomate, vagem), cereais integrais, aveia e farelo de trigo (barato, e pode ser acrescentado no caldo de feijão).
Uma revisão sistemática demonstrou que a suplementação dietética com fibras melhorou significativamente a constipação quando comparado com placebo (4).
Na presente revisão, não foram encontradas revisões sistemáticas consistentes que apontem qual a opção terapêutica medicamentosa mais efetiva no tratamento de manutenção da constipação funcional em crianças menores de 1 ano. Contudo, o polietilenoglicol, a lactulose e o sorbitol (não existe preparação comercial no Brasil, sendo necessário manipular), além do supositório de glicerina, são boas opções terapêuticas (2).
Caso não ocorra melhora dos sintomas da criança dentro de seis meses (considerando boa adesão ao tratamento) o encaminhamento para o especialista focal deve ser considerado (1).

Bibliografia Selecionada

  1. Biggs WS, Dery WH. Evaluation and treatment of constipation in infants and children. Am Fam Physician. 2006 Feb 1;73(3):469-77. Disponível em: http://www.nccpeds.com/ContinuityModules-Spring/Spring%20Faculty%20Modules/Constipation-Faculty.pdf Acesso em: 11 fevereiro 2010.
  2. Baker SS, Liptak GS, Colletti RB, Croffie JM, Di Lorenzo C, Ector W, Nurko S. Constipation in infants and children: evaluation and treatment. A medical position statement of the North American Society for Pediatric Gastroenterology and Nutrition. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 1999 Nov;29(5):612-26. Erratum in: J Pediatr Gastroenterol Nutr 2000 Jan;30(1):109. Disponível em:  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10554136 Aceso em: 11 fevereiro 2010.
  3. Felt B, Brown P, Coran A, Kochhar P, Opipari-Arrigan L. Functional constipation and soiling in children [Internet]. University of Michigan Health System guidelines for clinical care 2003. [cited 2005 Feb 2]. Disponível em:  http://cme.med.umich.edu/pdf/guideline/peds03.pdf Acesso em: 11 fevereiro de 2010.
  4. Abhyankar A, Carcani-Rathwell I, Clayden G. Constipation in children. Clinical Evidence; 2007.