Todos os pacientes com sintomas compatíveis com esofagite de refluxo devem realizar Endoscopia Digestiva Alta?

Essa resposta será fundamentada no Consenso Brasileiro de Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) e portanto tem grau de recomendação D. O tratamento da DRGE objetiva primariamente o alívio dos sintomas, a cicatrização das lesões e a prevenção de recidivas e complicações. É importante considerar na abordagem inicial do paciente a idade e a presença ou não de manifestações de alarme (disfagia, odinofagia, anemia, hemorragia digestiva, emagrecimento). A investigação diagnóstica por meio do exame endoscópico é particularmente importante nos pacientes com mais de 40 anos de idade, bem como nos que apresentam manifestações de alarme, história familiar de câncer, náuseas e vômitos, sintomas de grande intensidade ou de ocorrência noturna.
Pacientes com menos de 40 anos de idade que apresentam manifestações típicas (pirose e regurgitação), sem manifestações de alarme, podem ser considerados para receber terapêutica com inibidores da bomba protônica (IBP) em dose plena diária (omeprazol 20 mg, lanzoprazol 30 mg, pantoprazol 40 mg, rabeprazol 20 mg) por 4 semanas como conduta inicial. A resposta satisfatória ao teste terapêutico permite inferir o diagnóstico de DRGE. É importante referir, contudo, que o I Consenso Brasileiro – DRGE recomenda a realização prévia de exame endoscópico nesses casos para o estabelecimento ab initio do diagnóstico diferencial com outras afecções (úlcera péptica, gastrite, neoplasia). O exame endoscópico é o método de escolha para o diagnóstico das lesões causadas pelo refluxo gastroesofágico, permitindo avaliar a gravidade da esofagite e realizar biópsias onde e quando necessário. Deve, pois, ser considerado em primeiro lugar. Deve ser ressaltado que a ausência de alterações endoscópicas da DRGE não exclui o seu diagnóstico, já que 25% a 50% dos pacientes com sintomas típicos apresentam exame endoscópico normal.
Em pacientes com diagnóstico endoscópico de esofagite erosiva ou não erosiva, a conduta inicial é o uso de inibidor da bomba de próton por 6 a 12 semanas. Os pacientes que não apresentaram resposta totalmente satisfatória ao tratamento com IBP por 12 semanas devem ter a dose de IBP dobrada por mais 12 semanas e, se necessário, realizar pHmetria de 24 horas em uso de medicamento antes de serem considerados como insucesso terapêutico. A realização de exame endoscópico de controle está reservada apenas os pacientes com diagnóstico inicial de esofagite moderadas ou graves (graus 3 e 5 de Savary-Miller ou C-D de Los Angeles). Ressalta-se que a adição de um pró-cinético em associação com um IBP parece não aumentar os índices de cicatrização ou remissão dos sintomas. Uma revisão sistemática encontrou evidencias de que o uso de IBP aumentam a taxa de cicatrização quando comparados ao placebo ou antagonista dos receptores H2. Uma revisão sistemática encontrou que o esomeprazol 40mg/dia aumenta as taxas de cicatrização na quarta semana quando comparado com omeprazol 20mg/dia. Um Ensaio Clínico Randomizado encontrou que o uso de esomeprazol 40mg/dia aumenta as taxas de cura na oitava semana quando comparado com pantoprazol 40mg/dia. Em relação a melhora da sintomatologia os IBPs parecem não ter diferença.

 

 

Bibliografia Selecionada

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  2. Moraes-Filho J, Cecconello I, Gama-Rodrigues J, Castro L, Henry MA, Meneghelli UG, Quigley E; Brazilian Consensus Group. Brazilian consensus on gastroesophageal reflux disease: proposals for assessment, classification, and management. Am J Gastroenterol. 2002 Feb;97(2):241-8.
  3. I Consenso Brasileiro da Doença do Refluxo Gastroesofágico (I CBDRGE). GED 2000 Jun;1(Suppl): 7-32.