Gabapentina não é mais eficaz que placebo para alívio da dor em mulheres com dor pélvica crônica e apresenta mais efeitos colaterais

Área Temática

Questão Clínica

A gabapentina é eficaz no alívio da dor em mulheres com dor pélvica crônica?

Resposta Baseada em Evidência

Neste ensaio clínico com mulheres com dor pélvica crônica altamente aderentes ao tratamento, a gabapentina não foi mais eficaz que o placebo no alívio da dor e causou significativamente mais efeitos colaterais.

Alertas

Contexto

Este é um ensaio clínico randomizado, multicêntrico, duplo-cego e controlado por placebo realizado em 39 centros hospitalares no Reino Unido. O estudo incluiu 306 mulheres, de 18 a 50 anos de idade, que apresentavam dor pélvica crônica (com e sem dismenorreia e dispareunia) por pelo menos 3 meses, que estavam em uso (ou desejavam estar) de método contraceptivo, e não tinham doença pélvica em laparoscopia realizada até 3 anos antes do recrutamento. Os participantes foram randomizados em uma proporção de 1:1 para receber gabapentina (dose inicial de 300 mg/dia titulada até dose máxima de 2.700 mg/dia até que a mulher experimentasse alívio da dor ou não pudesse tolerar os efeitos colaterais) ou placebo por 16 semanas. Ao final de 4 meses, os pesquisadores obtiveram dados sobre a dor em aproximadamente 80% das mulheres e imputaram os dados para o restante. No final do estudo, os escores médio e máximo de dor diminuíram em ambos os grupos, mas sem diferenças significativas. No entanto, as mulheres que tomaram gabapentina eram mais propensas a efeitos colaterais (7% vs 2%), incluindo tonturas (54% vs 28%) ou sonolência (52% vs 29%). O estudo foi grande o suficiente para detectar uma diferença de 1 ponto numa escala de dor de 10 pontos.

Comentários sobre a aplicabilidade do estudo para APS no contexto do SUS, sob o ponto de vista clínico, de gestão da saúde e para o público em geral

À época do desenho deste estudo, o Reino Unido observava um aumento substancial no uso de gabapentinóides, inclusive para dor pélvica crônica, em todos os níveis de atenção, o que em parte se explica pela existência de protocolos clínicos baseados em evidências frágeis. Dessa forma, com esse robusto ensaio clínico, pode-se afirmar com bom grau de certeza que essa conduta não traz benefícios às mulheres com dor pélvica crônica, mesmo se considerarmos que alguns procedimentos de randomização tornam a população do estudo um pouco distante do que é comum vermos na prática cotidiana. Os próprios autores apontam que, a partir de seu estudo, devemos direcionar nossas energias para testar o efeito de outras terapias medicamentosas, fisioterapia e terapias cognitivas comportamentais em mulheres com dor pélvica crônica. Esse estudo é importante para o contexto brasileiro tendo em vista a alta prevalência do problema em nossa população (p. ex. 11,5% na população de Ribeirão Preto e 19% em São Luiz).

Referências bibliográficas

Horne AW, Vincent K, Hewitt CA, et al, for the GaPP2 collaborative. Gabapentin for chronic pelvic pain in women (GaPP2): a multicentre, randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet 2020;396(10255):909-917. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31693-7/fulltext

Outros estudos:

Coelho LSC et al. Prevalence and conditions associated with chronic pelvic pain in women from São Luís, Brazil. Brazilian Journal of Medical and Biological Research 2014;47(9):818-825. Disponível em: https://www.scielo.br/j/bjmbr/a/KmKq5QCRsJRtwh8S73DQXhN/?lang=en

Silva GPOG et al. High prevalence of chronic pelvic pain in women in Ribeirão Preto, Brazil and direct association with abdominal surgery. Clinics 2011;66(8):1307-1312. Disponível em: https://www.scielo.br/j/clin/a/Z4JKVSSMWmHMVWYvyxRbm7G/?lang=en#