Qual é a melhor dose de aspirina para prevenção secundária em pessoas com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida?

Área Temática

Questão Clínica

Qual é a melhor dose de aspirina para prevenção secundária em pessoas com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida?

Resposta Baseada em Evidência

Não há vantagem extra em uma dose de 325 mg de aspirina para pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida (DCV), e as pessoas que tomam a dose mais alta frequentemente mudam para a dose mais baixa (embora o motivo não seja claro). Basta ficar com 81 mg. Nível de Evidência=1b

Alertas

Contexto

A Sociedade Europeia de Cardiologia recomenda uma dose de 81 mg de aspirina para pacientes com DCV. A orientação dos EUA é menos clara e muitos pacientes recebem alta com uma dose de 325 mg após um evento cardiovascular. Este ensaio pragmático identificou pacientes com DCV estabelecida e os randomizou para receber 81 mg ou 325 mg de aspirina por dia. Os pacientes compraram a aspirina por conta própria e, em seguida, tiveram visitas de acompanhamento a cada 3 ou 6 meses (os autores queriam ver se visitas mais frequentes afetavam a participação no ensaio – não afetou). O desfecho primário foi um composto de morte, hospitalização por infarto do miocárdio ou hospitalização por acidente vascular cerebral. Um total de 15.076 pacientes foram randomizados, com mediana de idade de 68 anos; 69,4% eram homens, 79,8% da cor branca. Pouco mais de um terço tinha um infarto do miocárdio prévio, enquanto pouco mais da metade havia passado por uma revascularização prévia. Após um acompanhamento médio de pouco mais de 2 anos, não houve diferença significativa entre os grupos no desfecho primário (7,28% para 81 mg e 7,51% para 325 mg, taxa de risco [HR] 1,02; Intervalo de Confiança [IC]95% de 0,91 a 1,14; p valor=0,75). Também não houve diferença na probabilidade de hospitalização por sangramento maior (0,63% vs 0,60%, taxa de risco [HR] 1,18; IC95% de 0,79 a 1,77; p valor=0,41). A adesão foi boa, mas 42% no grupo de 325 mg mudou para a dose mais baixa, em comparação com apenas 7% no grupo de 81 mg que mudou para a dose mais alta (HR e IC não informados no texto). Os pacientes que tomaram a dose mais alta também foram mais propensos a interromper totalmente a aspirina, comparados aos que usaram doses mais baixas (11,1% e 7,0%, respectivamente – HR e IC não mostrados no artigo). Também não houve diferença entre os grupos de 81mg e 325mg para desfechos secundários, como revascularização (6,05% x 5,96%, respectivamente; IC95% 0,92 a 1,19) ou hospitalização por acidente isquêmico transitório (0,23% x 0,35%, respectivamente; IC95% 0,44 a 1,42). Não foram relatados dados sobre efeitos adversos além de sangramento importante.

Comentários sobre a aplicabilidade do estudo para APS no contexto do SUS, sob o ponto de vista clínico, de gestão da saúde e para o público em geral

Os ensaios pragmáticos são estudos realizados com menor rigor metodológico em comparação aos ensaios clínicos randomizados (ECR), para fins de se avaliar efetividade, não eficácia. Eles buscam avaliar os efeitos da intervenção em condições habituais na população. Este estudo corrobora informações previamente conhecidas de ECR de que doses mais altas da aspirina (maiores que o tradicional comprimido de 100mg de AAS) não agregam benefícios para prevenção da DCV.

Referências bibliográficas

Jones WS, Mulder H, Wruck LM, et al. Comparative effectiveness of aspirin dosing in cardiovascular disease. N Engl J Med 2021;384(21):1981-1990. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2102137