Vitamina D, ômega-3 e treinamento de força não são benéficos para idosos sem comorbidades significativas

Área Temática

Questão Clínica

Vitamina D, ômega-3 e treinamento de força, sozinhos ou em combinação, são benéficos para idosos?

Resposta Baseada em Evidência

Segundo este estudo, idosos com mais de 70 anos, residentes na comunidade, frágeis ou não, não se beneficiam (após 3 anos de acompanhamento) do uso de vitamina D e ômega-3, bem como de treinamento de força, sozinhos ou em combinação, em relação a pressão arterial, performance, cognição, infecções e fraturas não vertebrais.

Alertas

Contexto

Este é um grande ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, realizado em cinco países europeus e que teve parte de seu financiamento oriundo da indústria farmacêutica. Foram incluídos 2.157 adultos, com 70 anos ou mais, sem problemas de saúde significativos nos 5 anos anteriores à inclusão (ex. câncer ou infarto), e com mobilidade e estado cognitivo satisfatórios. Os pacientes foram randomizados em bloco (alocação oculta) para 1 de 8 grupos que combinavam vitamina D (2.000 UI / d), ômega-3 (1g / d) e programa de treinamento de força (30 minutos 3 vezes por semana), sozinho ou em combinação, com placebo e/ou programa de exercícios focado apenas na flexibilidade articular. Os pacientes foram acompanhados por 3 meses e seis desfechos primários foram avaliados: alteração da pressão arterial, fraturas não vertebrais, “saúde” muscular medida pelo Short Physical Performance Battery, saúde mental medida pelo Montreal Cognitive Assessment, e infecções. A população do estudo tinha, na linha de base, 74 anos em média, 61% mulheres, 12 anos de estudo em média, 41% com histórico de queda (atendendo parâmetro da amostragem), baixo índice de comorbidades, mobilidade e cognição satisfatórios, 82% com nível de atividade física moderada-alta. A taxa de desistência do estudo foi de 12% e a adesão ao protocolo de tratamento foi alta. Sem muita surpresa para quem acompanha o assunto , na análise de intenção de tratar, nenhuma diferença significativa entre os grupos ocorreu na pressão arterial, performance, cognição, infecções ou fraturas não vertebrais.

Comentários sobre a aplicabilidade do estudo para APS no contexto do SUS, sob o ponto de vista clínico, de gestão da saúde e para o público em geral

Este é um ensaio randomizado grande e bem conduzido que ajuda a quebrar ainda mais o entusiasmo em torno da vitamina D e do ômega-3 para idosos e coloca em xeque os resultados de diversos ensaios clínicos pequenos feitos anteriormente que sugeriam efeitos positivos de ambas no controle da pressão arterial. Está mais do que na hora das agências reguladoras brasileiras normatizarem a venda desses produtos para a população (informações no rótulo, exposição nos balcões das farmácias, propagandas na TV, etc). Como limitação deste estudo para nosso cenário, tem-se uma população com perfil de saúde muito diferente do cotidiano encontrado nos serviços de saúde brasileiros, mas não há dados de qualidade para acreditarmos que os resultados seriam muito diferentes se a população do estudo fosse, por exemplo, majoritariamente negra ou parda, menos escolarizada, com baixas taxas de atividade física e nível de saúde mais baixo.

Referências bibliográficas

Bischoff-Ferrari HA, Vellas B, Rizzoli R, et al, for the DO-HEALTH Research Group. Effect of vitamin D supplementation, omega-3 fatty acid supplementation, or a strength-training exercise program on clinical outcomes in older adults. The DO-HEALTH randomized clinical trial. JAMA 2020;324(18):1855-1868. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2772758